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De que forma podemos cultivar a resiliência emocional em educadores?

Em seu novo artigo, Paula Gonçalves comenta como educadores podem desenvolver e cultivar uma resiliência emocional, por meio de habilidades de aprendizagem, da inteligência emocional e do equilíbrio psicológico. Confira:

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Para o desenvolvimento mais amplo e profundo de habilidades e competências no Ensino Básico, as metodologias ativas têm sido uma abordagem já exigida pela BNCC. Os resultados deste processo em crianças e jovens são correlacionados com melhora acadêmica, dado um maior envolvimento e motivação nas aulas. Do mesmo modo, convergem para uma preparação mais integral dos estudantes como cidadãos, aptos a terem atitudes empáticas, colaborativas, protagonistas e tantas outras habilidades necessárias para as exigências do “agora” e as do século XXI.

Não é pouco comum encontrarmos questionamento sobre a validade do processo de formação de professores para as exigência de ensino e aprendizagem atuais. Contudo, não se trata somente do repensar do processo do ensino tradicional ou da necessidade de diversificação do modelo instrucional. A reflexão é que no cerne do desenvolvimento de experiências de aprendizagem, seja qual for seu modelo, em metodologias ativas ou até mesmo as mais tradicionais, os educadores precisam se sentir preparados e seguros para se relacionar com a um grupo de crianças e jovens da geração de hoje. As redes sociais, com a facilidade de exposição do indivíduo, convidam crianças a jovens e serem mais participativos, questionadores; mesmo que em temáticas não necessariamente pedagógicas.

No desenvolvimento uma aprendizagem mais ativa e dinâmica, essas demandas de maior participação do discente fazem parte da estratégia do processo em si. Neste contexto, é importante refletir e aprofundar que tipo de atribuições estão sendo solicitadas a esse professor mediador. São somente as técnicas para condução de uma aula em modelos diversificados, como aprendizagem com base em problemas, estação por rotações etc.?

No artigo Design Thinking na aprendizagem personalizada, já abordamos anteriormente a importância desse método para que professoras(es) exercitem sua criatividade para reflexão sobre problemas em sala de aula, para estarem abertos para reflexão e aprimoramento contínuo de sua prática. Tão relevantes quanto as habilidades mencionadas acima, é fundamental o desenvolvimento da inteligência emocional e equilíbrio psicológico de um educador ou educadora que se relacione com um ambiente altamente complexo (em termos técnicos e, principalmente, humanos).

Ao mencionar essas habilidades, novamente retornamos para o ponto de incoerência: é possível se ensine algo que não se encontra consolidado em nós mesmas(os)?

E, mais uma vez, voltamos para a reflexão do início deste ciclo: quais são as experiências em que professoras(es) desenvolvem deliberadamente a inteligência emocional, resiliência, empatia, foco no presente e atitudes de sucesso? Que tipo de relação está sendo incentivada entre gestores e docentes? Como se estabelece a relação entre pares dentro do ambiente escolar? As formações continuadas estão levando esses aspectos como centrais?

Para fazer um questionamento rápido de como lidamos com a complexidade emocional posta na sala de aula todos os dias, deixo a pergunta: qual sua reação quando um estudante vira os olhos para você, com tom de deboche, durante a condução de uma explicação? É muito natural e completamente compreensível se sua resposta for que os sentimentos negativos seriam os primeiros a se expressarem após uma situação tão desagradável e até mesmo desrespeitosa.

A professora, escritora e coach educacional, Elena Aguilar, usa este exemplo para reforçar a importância do autodesenvolvimento como principal ferramenta para transformação de uma realidade ou situação adversa. A educadora comenta que é a forma com que treinamos nosso olhar, sentimento e equilíbrio emocional sobre esse tipo de situação que realmente nos torna resilientes.

Ela menciona também outras possibilidades de pensamento que podem ajudar nesse tipo de situação, tais como:

  • questionar o motivo pelo qual esse ou essa estudante está se colocando nessa posição;
  • considerar que provavelmente ele ou ela está passando por uma fase de testar seu poder estressando todos limites que lhe são postos e, até mesmo;
  • considerar que esse ou essa estudante teve uma certa dose de controle sobre seus atos, pois não expressou deliberadamente nenhum tipo de contestação verbal ou afronta explícita.

É importante diferenciar que o desenvolvimento da resiliência emocional que se trata aqui não deve ser confundido com atitudes compassivas em situações desrespeitosas em sala de aula. O que Aguilar preza é reconsideração de emoções automáticas, que eventualmente nos dominam e que podem fazer com que a rotina, já suficientemente desafiadora, passe a ser desestimulante.  

Este tipo de resiliência pode ser uma ajuda quando professores estimulam a capacidade de se descolar da situação, ou seja, “não levam para o pessoal”. Não necessariamente essa atitude reflete um incômodo ou desaprovação da aula em si, mas pode estar muito relacionada com o fato desse ou dessa jovem estar vivenciando uma fase de testar seus limites. E nada melhor do que a serenidade do responsável para reforçar que aquele comportamento não é aprovado. O desenvolvimento do autoconhecimento em educadores é completamente fundamental dado o ambiente altamente exigente em que vivemos e serve como fortaleza e também como um ato de autocuidado diante deste contexto.

Quando educadores desenvolvem suas bagagens e o fortalecimento socioemocional, há um aperfeiçoamento na condução de aulas de desenvolvimento de habilidades e competências dos próprios estudantes, pois a(o) professora(or) conhece tecnicamente e emocionalmente o que está sendo tratado como tema de estudo. Além disso, agrega ao próprio bem estar da(o) docente, por ela(e) vai estar mais preparada(o) para se relacionar com situações delicadas ou adversas.

É importante valorizar essa temática não somente na perspectiva do desenvolvimento profissional de educadores para cumprimento de exigências dos novos formatos da educação, mas principalmente como desenvolvimento integral do ser humano, e que deve iniciar com o autocuidado e reflexão.

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*Paula Gonçalves iniciou sua trajetória com a educação e os negócios de impacto na graduação de Relações Internacionais, quando foi coordenadora do projeto PAS de educação de Jovens e Adultos. Durante os 3 últimos anos na Geekie, contribuiu para a construção das áreas de atendimento e engajamento de escolas. Hoje, Paula facilita workshops na áreas de Sucesso do Usuário e engajamento do Amani Institute, onde também completou sua pós graduação em Gestão e Inovação Social. Também atua como Relações Institucionais da ONG Centros Etievan de Educação Integral para Primeira Infância. Além disso, apoia a equipe Consultoria Pedagógica da Geekie.

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