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Entenda como é possível motivar o estudante por meio de práticas inovadoras em sala de aula

Neste artigo, Carolina Brant e Paula Gonçalves contam quais foram suas impressões sobre o cenário do ensino básico norte-americano, com base em visitas a escolas dos Estados Unidos. Veja como podemos nos inspirar nesse modelo e o que podemos aplicar para a construção de uma educação de aprendizagem efetiva. Confira:

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Recentemente, participamos do PL SUMMIT 2018, evento sobre aprendizado personalizado que tem como foco a personalização no cenário educacional norte-americano. Aproveitando a viagem, visitamos algumas escolas americanas que adotam metodologias inovadoras em sala de aula e aprendizagem personalizada.

Dois pontos chamaram bastante a nossa atenção nos dias que estivemos imersas em um cenário educacional bem diferente do nosso. O primeiro é de que não é preciso muitos recursos para se ter alunos engajados em sala de aula e uma metodologia de sala de aula que funcione. E o segundo, é o de que inserir a tecnologia na sala de aula, não é um problema, é apenas consequência natural na personalização da aprendizagem.

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METODOLOGIAS ATIVAS FUNCIONAM E ENGAJAM

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Alunos em sala na New School San Francisco – Foto: Camila Karino

Algo que saltou nossos olhos, nessas visitas, foi nível de envolvimento e engajamento das alunas e alunos na sala de aula. Em uma das escolas em que estivemos, toda a visita foi guiada por dois alunos, um do 1º ano do Ensino Fundamental e outro do 6º ano.  Ambos se sentiam confiantes o suficiente para liderar esse tour, complementado pela participação de representantes de cada uma das salas que visitávamos que se prontificavam a nos mostrar os trabalhos em que estavam envolvidos no momento. Era uma demonstração constante de autonomia e articulação.

Consolidando essa experiência, presenciamos ambientes com mesas comunitárias, alunos e alunas trabalhando autonomamente, em grupos, discutindo de forma engajada qual seria a melhor solução aos problemas que lhe eram apresentados. E a professora estava ali como facilitadora desse processo orgânico de construção da aprendizagem, esclarecendo dúvidas, discutindo pontos mais complexos, contribuindo com pequenos grupos ou individualmente.

E a descrição de um cenário tão motivador pode nos levar a imaginar que essas são escolas dotadas de muitos recursos e com uma estrutura muitas vezes invejável. E, na verdade, era exatamente o contrário. Em sua maioria, visitamos as chamadas charter schools, que são basicamente escolas fomentadas por recursos públicos, geridas pela comunidade de forma independente, compromissadas com a performance acadêmica e com a garantia de uma gestão estável, sob pena de serem fechadas pelo governo. Escolas que recebem estudantes de diferentes condições sociais e cuja estrutura não é tão excepcional assim. Recebem desde estudantes com condição financeira estável até estudantes em condição de vulnerabilidade (filhas e filhos de imigrantes, por exemplo).

E por que funciona? Nosso maior palpite é que a razão esteja no uso de metodologias ativas em sala de aula. Vimos salas que utilizavam rotação por estações, aprendizagem baseada em projetos e inquiry-based learning. E acreditamos nisso, pois em todas elas, o estudante é o referencial da construção de sua própria aprendizagem. Nesse contexto, desenvolvem habilidades que contribuem para a sua própria aprendizagem.

Essas metodologias também levaram algum tempo para se consolidarem, como em qualquer espaço de aprendizagem ou movimento de mudança. Mas o que pareceu servir como apoio para que os educadores se sentissem confortáveis com a condução destas aulas foi o suporte da equipe de coordenação e gestão aliado a disciplina em realizar estas práticas diariamente, até que se tornassem consolidadas, somado ao uso da tecnologia auxiliando o processo.

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Alunos da Katherine Smith School – Foto: Carolina Brant

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A TECNOLOGIA COMO ALIADA NATURAL DA APRENDIZAGEM

Para falar sobre a segunda temática, é importante ressaltar que a personalização da aprendizagem é uma filosofia muito abrangente e com diversas interpretações. A consultoria especialista no tema e a mesma que promoveu o evento PL SUMMIT, a Education Elements,  propõe que existem 4 pilares fundamentais na personalização:

PL summit 3O pilar da Apropriação e Reflexão do Estudante incentiva a investigação sobre quais os recursos, ambientes e temáticas de aprendizagem que mais despertam a curiosidade e apoiam a compreensão do estudantes, mesmo com necessidades específicas em seu processo.

A tecnologia, nesse sentido, pode servir como um recurso que auxilia na integração do conteúdo, apoiando nesta diferenciação e em diferentes ritmos. Mas o ambiente virtual, as redes sociais e a identidade virtual dos alunos também são utilizadas por muitas escolas como temáticas relevantes no próprio currículo base. Isso acontece pois colocam assuntos que despertam maior interesse como objeto de estudo e, até mesmo, como parte do currículo.

Um exemplo disso pode ser visto em algumas escolas que utilizam tempo de sala de aula para apoiar os estudantes a desenvolverem projetos com temáticas de seu próprio interesse. Vimos, também, exemplos de estudantes que publicaram vídeos caseiros sobre hobbies como resultado final de um projeto sistematizado por etapas, objetivos e avaliação final. Outra vertente foram educadores que apoiam estudantes a criarem um perfil virtual (blogs, Twitter) mais qualificado, de forma que possam incluir trabalhos de sua autoria, sejam escolares ou pessoais.

Muitas destas inspirações foram elucidadas na palestra do George Couros, educador entusiasta da inovação na educação. Couros provoca sua platéia para usufruir da incrível onda de protagonismo jovem no ambiente virtual para problematizar a criação de mais diálogo, evidenciar os talentos escondidos dos nossos estudantes e até mesmo apoiá-los na conscientização e criação de uma atuação nas redes sociais mais empática e menos vulnerável.

A reflexão que ficou latente é se os próprios educadores também não poderiam se apoiar cada vez mais para criação de espaços coletivos e virtuais em que pudessem de fato colaborar e trocar, e se expressarem como profissionais dotados de excelência e opinião.

A partir do momento em que educadores se aproximam explicitamente da tecnologia não somente como instrumento de trabalho, mas também como objeto de estudo em si, eles envolvem os estudantes em sua forma mais integral no espaço de aprendizagem, conhecendo muito mais sobre suas verdadeiras habilidades, que hoje ficam ainda muito tímidas no formato e condução de algumas aulas.

A atuação do jovem no ambiente virtual e sua relação com a tecnologia já possuem implicações concretas sobre a percepção de si mesmo e influenciam de forma concreta e pragmática na vida do sujeito. Que grande pauta para uma aprendizagem mais significativa!
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*Carolina Brant é Designer Pedagógica da Geekie, bacharel em Direito com LL.M. em Direito Empresarial e está cursando o programa de certificação em Social-Emotional Learning and Character Development pela Rutgers School of Arts and Science em parceria com College of Saint Elizabeth. Tem experiência com Direito da Tecnologia, apaixonada por educação, encontrou seu caminho contribuindo para o time de Educação Digital da Geekie.
*Paula Gonçalves iniciou sua trajetória com a educação e os negócios de impacto na graduação de Relações Internacionais, quando foi coordenadora do projeto PAS de educação de Jovens e Adultos. Durante os 3 últimos anos na Geekie, contribuiu para a construção das áreas de atendimento e engajamento de escolas. Hoje, Paula facilita workshops na áreas de Sucesso do Usuário e engajamento do Amani Institute, onde também completou sua pós graduação em Gestão e Inovação Social. Também atua como Relações Institucionais da ONG Centros Etievan de Educação Integral para Primeira Infância. Além disso, apoia a equipe de Consultoria Pedagógica da Geekie.