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Já ouviu falar em cidade-educadora? Entenda qual a proposta educacional desse local

O que é uma cidade-educadora? Em seu novo artigo, Debora Garcia apresenta uma iniciativa inovadora na perspectiva da educação integral para o bem viver. Descubra:

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Outro dia, ao passear em um museu de artes no Rio de Janeiro, tive uma espécie de lampejo: como é bom ser impactada por obras de artistas – muitas vezes do nosso próprio país, outras tantas de outras localidades mundo afora – que conseguem, com um traço, uma escultura, uma composição ou uma performance, dizer tanto, de forma tão profunda e tocante, relembrando-nos de nossa humanidade?

Essa espécie de insight fez meus olhos marejarem e fui transportada aos tempos de escola onde, ainda pequena, ficava absolutamente absorta em atividades de cunho expressivo e artístico, reconfigurando a contagem das horas e sequer notando a passagem do tempo. Falar da importância da arte-educação na escola é, para mim, fundamental. Condição sine qua non para nos fundarmos enquanto entes humanos, entendendo que nosso lugar nesse planeta diz respeito a promover práticas sustentáveis e dialógicas não só para que o planeta sobreviva de forma plena, mas para que nós todos, partes integrantes dessa massa viva e colorida que é a Terra, possamos também aqui continuar habitando e produzindo significados durante nossa trajetória.

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Ipeartes e a aposta no bem viver!

Em um outro lampejo, dessa vez intuitivo, esbarrei em uma figura encantadora do Cerrado, durante um evento em Goiânia, que não só resolveu abrir as portas daquele santuário para mim a partir de nossas primeiras conversas e afinidades, como de quebra me colocou em contato com um projeto educativo pra lá de inovador e que acontece em um dos lugares mais mágicos do Brasil: a Chapada dos Veadeiros.

Cheguei lá pelas mãos de Ana Cristina Costaesilva – diretora criativa da Dharma Filmes- ,  que me levou à Cidade da Fraternidade, mais exatamente ao Educandário Humberto de Campos, para conhecer o trabalho político-pedagógico desenvolvido por lá e capitaneado pelo Ipeartes. Trata-se de um Instituto de Pesquisa, Ensino e Extensão em Arte Educação e Tecnologias Sustentáveis. É uma instituição vinculada à Secretaria de Educação, Cultura e Esporte de Goiás (SEDUCE) e pretende dar asas a uma educação inovadora, na perspectiva da educação integral para o bem viver.

A coordenadora de lá, Luz Marina Alcântara, responde pelas ações de implementação do projeto. São duas as perspectivas de atuação: a educação de caráter formal (escola inovadora) e a de caráter não formal (cidade educadora). Se já é bonito imaginar uma escola que abrace a inovação, o que dirá uma cidade inteira? Luz Marina foi designada pela SEDUCE para fazer parte de uma comissão intersecretarial que definiu Alto Paraíso como território do bem viver. Fruto de uma cooperação técnica assinada pelo governo do Estado com a prefeitura de Alto Paraíso de Goiás, eles colocaram o foco de seu trabalho em uma área de proteção ambiental – APA Pouso Alto, que rodeia o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, região nordeste do Estado. Ao todo são seis municípios que compõem a APA: Alto Paraíso, Nova Roma, Teresina de Goiás, Cavalcante, Colinas do Sul e São João D´Aliança.

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Uma cidade-educadora que promove uma Olimpíada de Humanidades

Luz Marina conta que a motivação para trabalhar no Ipeartes surgiu por conta das possibilidades de desenvolver uma proposta educacional que considera os sujeitos genuinamente em sua integralidade. Feitos de dimensões cognitivas, afetivas, físicas, de histórias cheias de diversidades, de uma população plena de sabedoria, com muitos saberes tradicionais, saberes da natureza, saberes da terra. Apesar da característica paradisíaca da região, no entanto, lá também há muitos desafios ainda não resolvidos, como índices de desenvolvimento econômico e social abaixo da média nacional e cidades com alto índice de analfabetismo. Talvez e sobretudo por isso, o trabalho do Ipeartes seja ainda mais crucial em um contexto como esse, onde o florescimento de uma cidade-educadora seja mais do que urgente e necessário.

Um dos sonhos do Ipeartes é ver o projeto piloto ser ampliado e, quem sabe, alcançar todo o estado de Goiás. Uma das estratégias para tornar o projeto ainda mais fortalecido é a organização da Olimpíada de Humanidades, que envolve estudantes e educadores das seis cidades que compõem o território de atuação, baseando-se nos princípios e valores que norteiam suas ações: arte-educação, sustentabilidade, cultura de paz, educação para os direitos humanos e diversidade, além do princípio da educação integral.

As atividades da olimpíada acontecem ao longo de todo o ano e culminam num Festival de Humanidades e Artes. Em 2018 o tema é Água, terra, fogo, ar e amor: interseccionando os elementos para proteger a APA Pouso Alto. No programa das olimpíadas estão incluídas atividades como formação de professores, produções artísticas, ações educativas no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, feiras científicas, festival de humanidades e turismo pedagógico.

O conceito do bem viver é, possivelmente,  um dos aspectos mais inovadores do projeto. Dá sentido à construção de uma comunidade educadora, além de promover a participação democrática e saudável de todos em busca de uma vida pautada pela realização dos sonhos e por uma educação de qualidade. Busca romper com uma educação meramente baseada em aquisição de conteúdos de forma estanque, destituída de significados. Seu principal objetivo é promover em seus alunos o espírito investigativo, criativo e aberto à solução de problemas para que todos possam ter uma vida mais integral e cheia de sentido.

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Vocação para a sustentabilidade e para o diálogo

A cidade de Alto Paraíso foi escolhida por sua vocação para a sustentabilidade e o Educandário Humberto de Campos (EHC) foi selecionado para ser o piloto do projeto dado o grau de maturidade e organização de seu corpo docente. Havia lá uma pré-disposição para a experimentação de práticas inovadoras e um terreno fértil para colocar as ideias em prática, segundo conta a educadora Luz Marina.

O Educandário está situado na zona rural a uma distância de 40 km de Alto Paraíso. Uma região totalmente comprometida com questões hídricas nacionais. Lá situa-se a bacia do rio Tocantinzinho que pertence a um importante e delicado ecossistema já que suas águas desembocam na bacia do rio Tocantins-Araguaia. Nada mais, nada menos que a maior bacia hidrográfica completamente brasileira.

Estudar, compreender e refletir sobre esse ecossistema é uma das temáticas do projeto Ipeartes por meio da arte-educação, que entende o processo pedagógico como integral, engajado, provocador, correlacionado ao entorno e em permanente diálogo entre educadores e educandos. É disso que trata o bem viver que o Ipeartes tanto defende. E que deveria reverberar em outros municípios, cidades e estados brasileiros, dando espaço para o entendimento de que não é só na escola onde o conhecimento se constituiu e se perpétua, mas em todos os espaços de ação e pertencimento de suas populações. É quando a dimensão do bem viver é percebida e sentida por todos e cada um de nós a partir dos processos de aprendizagem de fato significativos.

*DEBORA GARCIA É PEDAGOGA, MESTRE EM EDUCAÇÃO PELA UFF, FULBRIGHT SCHOLAR PELA GEORGIA STATE UNIVERSITY, GA, E ESPECIALISTA EM GESTÃO DO CONHECIMENTO PELA COPPE-UFRJ. É GERENTE DE CONTEÚDO DO CANAL FUTURA E UMA DAS AUTORAS DO LIVRO “DESTINO: EDUCAÇÃO – ESCOLAS INOVADORAS”, PUBLICADO PELA FUNDAÇÃO SANTILLANA/ED. MODERNA. EM 2017, EM CONJUNTO COM DANIELA KOPSCH E DANIELA BELMIRO, IDEALIZOU E CRIOU O BLOG “3DEVI”, UM ESPAÇO PARA CONTOS, ENSAIOS E REFLEXÕES DA MULHER CONTEMPORÂNEA.

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