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Como saber se a criança está de fato aprendendo na escola?

Neste artigo, Debora Garcia compartilha algumas dicas para orientar a condução de uma aprendizagem efetiva para estudantes dentro da sala de aula. Confira:

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Recentemente fui abordada por uma querida amiga que dividiu comigo sua angústia sobre educação. Dizia que tinha ouvido de uma mãe de uma criança da escola do seu filho – um ano mais adiantado – que mais da metade da sala não havia atingido a aprendizagem desejada e que a professora havia sugerido que fizessem uso de aulas particulares para reforçar o conteúdo de alguma maneira não absorvido. Ela estava indignada com a situação e perplexa por considerar que garantir a aprendizagem efetiva era papel da escola regular. E não de estratégias complementares ou para além do período convencional de escolaridade.

Concordei com ela. De fato, a criança precisa e pode aprender fundamentalmente no espaço escolar. Esse é um espaço consolidado de ensino-aprendizagem, de compartilhamento do conhecimento historicamente acumulado, de verificações constantes de aprendizagem e de incentivo permanente de superação de estágios de entendimento, avançando sempre nesse contexto para pensamentos e formulações mais complexos e elaborados.

Portanto, uma turma a qual mais da metade não conseguiu absorver um determinado conteúdo não me parece estar seguindo uma trajetória muito eficaz de ensino. Não são as crianças que têm que se adaptar ao currículo. Mas é a escola que precisa encontrar mecanismos e caminhos para garantir que todos aprendam.

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A paixão pela aprendizagem deve ser a tônica

Nesse contexto, algo precisaria ser revisto. Porque o “ideal” é que a criança queira e goste de aprender, que consiga absorver com curiosidade e predisposição o mundo a sua volta. Sim, sei que esse cenário nem sempre é tão cristalino como acabei de descrever, mas é o desejável. Em uma turma grande, sabemos, os níveis e ritmos de aprendizagem nunca serão padronizados, idênticos. Cada criança é um ser único, com suas características, facilidades e desafios particulares, visões de mundo e histórico familiar igualmente singular.

Simplesmente aceitar o fato de que mais da metade dos alunos de uma turma não conseguiu entender do que tratava uma determinada matéria é, no mínimo, um indicativo de dúvida sobre o processo que está sendo deflagrado e de suas possíveis lacunas. Os exemplos foram os mais eficazes? Em quanto tempo aquele assunto foi tratado? As terminologias usadas eram acessíveis à faixa etária? O(a) professor(a) conseguiu acompanhar o progresso da turma e perceber possíveis dificuldades no percurso? Os exercícios propostos tinham um propósito claro e foram crescendo em dificuldade de forma paulatina? As verificações de aprendizagem foram episódicas ou processuais? Se após todas essas perguntas terem sido positivamente respondidas ainda assim a turma apresentar dificuldades, vale uma análise mais individualizada para perceber em que estágios de desenvolvimento cognitivo estão e como fazer para apresentar com mais eficácia novos conteúdos.

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Porém…

Isto posto, queria dizer que o mundo contemporâneo nos reserva algumas surpresas inevitáveis com relação ao que deve ser aprendido e absorvido por nossas crianças daqui para frente. Por mais que os pais se angustiem com uma aprendizagem eminentemente escolástica e livresca de seus filhos, baseando-se normalmente na forma como aprenderam no passado, por mais que cobrem dos pequenos a memorização de fatos, datas e figuras históricas, que queiram que as crianças saibam de cor a tabuada e memorizem os afluentes do Amazonas, tal qual fizeram há 30 anos atrás, sinto desapontá-los mas não serão estes os conhecimentos que serão “cobrados” dos seus filhos no frigir dos ovos do volátil e incerto século XXI.

Os ambientes educativos mais inovadores precisam ser capazes de gerar um clima favorável para a troca de conhecimento. E para o desenvolvimento de habilidades em três campos distintos: cognitivo, intrapessoal e interpessoal. Se estiver falando grego, pode deixar que começo agora a trocar em miúdos!

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O que estará de fato em jogo no futuro

Não pretendo esmiuçar todas as habilidades contemporâneas já mapeadas, mas mencionarei algumas delas. Não basta memorizar um conteúdo, por exemplo.  É preciso saber articulá-lo, colocá-lo em contexto. Portanto, pensamento crítico é essencial. Está com um pepino daqueles nas mãos? Então, no século XXI a habilidade de resolver problemas será cada vez mais cobrada e valorizada. Pense nisso toda vez que flagrar seu filho dando um jeitinho para resolver uma questão complexa com criatividade e artimanha! Isso valerá ouro no futuro.  Seu filho tem um problemão daqueles pela frente e precisa escolher qual caminho seguir, mas não está fácil? Então, a tomada de decisão (acertada, de preferência) estará cada vez mais em voga no mundo do trabalho que as crianças de hoje frequentarão no futuro, independentemente da função ou da carreira que escolham. Para não ficarmos só na esfera cognitiva, habilidades interpessoais e intrapessoais como trabalho em equipe, automonitoramento, iniciativa, flexibilidade, autodidatismo, perseverança, empatia e valorização da diversidade serão palavras-chave definidoras do sucesso das novas gerações.  

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Com que lentes observar o que está ou não está funcionando?

Portanto, se você estiver angustiado(a) com relação à efetiva aprendizagem do seu filho, tente ampliar o espectro de observação e ir além da cobrança por retenção de conhecimento livresco e habilidade de reproduzir o que já foi dito ou escrito por alguém. Perceba se seu(sua) filho(a) tem pensamentos e ideias próprios(as). Veja se observa o mundo com curiosidade. Se sabe formular boas perguntas sobre o que está acontecendo. Se tem vontade de saber mais sobre como as coisas funcionam, como viemos parar nesse planeta e se existem outros mundos a serem desbravados universo afora.

A Ciência de ponta, por exemplo, se constitui fundamentalmente na formulação de hipóteses (muitas vezes instigantes ou até mesmo próximas do absurdo) e da capacidade resiliente de testar e retestar uma ideia, submetê-la à análise e à verificação constante. Para isso, muito mais do que um conhecimento enciclopédico sobre algo (isso sempre pode ser acessado quando necessário nas vastas bibliotecas virtuais que existem por aí) é importante saber correlacionar saberes, formular boas questões, saber dar saltos de pensamento que comecem do mais amplo até o mais específico e vice-versa. Sair do micro universo e ampliar as ideias e conceitos de tal forma que formem um leque imensurável de possibilidades.

Ao contrário das gerações passadas que escolhiam um ofício e se dedicavam a ele por toda uma vida, o futuro reserva a possibilidade de carreiras seriadas e às vezes até simultâneas, a aprendizagem continuada e mudanças de cenário que se alteram com a velocidade da luz. É nesse jogo de tabuleiro escorregadio e incerto que nossos(as) filhos(as) jogarão. Nem defendo que alguém vença. A própria ideia de vitória me parece deslocada e sem sentido num contexto tão múltiplo e desafiador. Longe disso. Mas que sejam divertidas e proveitosas as jogadas que nossas crianças possam empreender mais para adiante no curso de suas vidas. Para o bem das nossas sociedades futuras e de nosso planeta.

Pense nisso!

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*DEBORA GARCIA É PEDAGOGA, MESTRE EM EDUCAÇÃO PELA UFF, FULBRIGHT SCHOLAR PELA GEORGIA STATE UNIVERSITY, GA, E ESPECIALISTA EM GESTÃO DO CONHECIMENTO PELA COPPE-UFRJ. É GERENTE DE CONTEÚDO DO CANAL FUTURA E UMA DAS AUTORAS DO LIVRO “DESTINO: EDUCAÇÃO – ESCOLAS INOVADORAS”, PUBLICADO PELA FUNDAÇÃO SANTILLANA/ED. MODERNA. EM 2017, EM CONJUNTO COM DANIELA KOPSCH E DANIELA BELMIRO, IDEALIZOU E CRIOU O BLOG “3DEVI”, UM ESPAÇO PARA CONTOS, ENSAIOS E REFLEXÕES DA MULHER CONTEMPORÂNEA.

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