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Metralhadora giratória de José Pacheco é destaque no primeiro dia da Bett

“Aula é inútil, é prejudicial”, vociferou o celebrado criador da Escola da Ponte, José Pacheco.

Era perto do meio-dia desta quarta-feira, dia da abertura da Bett Educar, maior feira da educação do País, e o debate sobre o currículo do futuro e a necessidade de estimular competências sociais estava prestes a acabar. Mas ninguém arredou pé da sala. “Há 40 anos se diz a mesma coisa e ainda fazemos errado. Não é oba-oba (o discurso pela mudança), é necessidade.”

Para o educador português, a educação vive em dois mundos que não se conectam. “Tem o mundo ideal, o da fantasia das leis, das teorias. E tem o mundo real, o submundo das escolas, onde o professor sofre e o aluno não aprende”, disse. E de quem é a culpa? Pacheco enumerou possibilidades como a burocracia, o “sistema que usa o professor de bode expiatório” antes de responder à pergunta: “O problema é de ordem cultural.”

‘Temos de assumir nossa parcela de culpa’

O desabafo de Pacheco, que logo a seguir pediu desculpas por ter elevado o tom de voz (“estou zangado”), admite duas leituras. A primeira seguiu o tom geral dos demais palestrantes, de que o currículo oficial do ensino básico, ao mesmo tempo defasado e minucioso, engessa a capacidade de inovação das escolas. Mas também foi um chamado aos educadores para que não se conformem com essa situação. “Temos de assumir nossa parcela de culpa”, disse. “Precisamos de coragem, para fazer o que é preciso, e de prudência, porque criança não é cobaia.”

Quanto ao educador assumir sua parcela de culpa, Pacheco exemplificou com os projetos político-pedagógicos das escolas, que muitas vezes pregam a inovação e o protagonismo dos alunos. “No fundo, não é isso que se faz.” Para ele, sem uma mudança cultural, novos currículos padronizados vão levar a novos projetos pedagógicos fictícios, feitos para inglês ver. “Não se trabalha sozinho, o projeto tem de ser construído com os alunos, o novo currículo não é o da aprendizagem em sala, mas em outros espaços e tempos”, disse. “Não sou construtivista, sou destrutivista, quero saber do chão da escola.”

‘Múmias’ e o ‘sequestro’ de Paulo Freire

Sobrou para as universidades. “O professor fica quatro anos da faculdade aprendendo sobre Piaget, Vygotsky e outras múmias”, disse Pacheco. Depois falou de um pensador da educação que admira, o brasileiro Paulo Freire. “Nunca vi o Paulo Freire no chão da escola, ele está sequestrado nas teses de doutorado das universidades,” afirmou. “O grande problema da educação hoje é a universidade, embora ela também seja a grande solução.”

“Sobrou” até para a Escola da Ponte, que Pacheco ajudou a projetar para o mundo como exemplo de espaço de autonomia dos alunos. “Não vou falar da Escola da Ponte. Estou cansado desta praga com 30 anos de vida.”

Geekie em destaque

Depois do “destrutivismo” provocador de Pacheco, o clima da Bett à tarde foi mais ameno. Um dos destaques da programação foi a palestra sobre as plataformas adaptativas e sua capacidade de melhorar a performance dos alunos. A Geekie, por sua vez, foi um dos destaques da palestra. Diretora pedagógica do Instituto Paramitas, Mary Grace Andrioli citou a plataforma adaptativa da startup entre outras do exterior que trabalham o estímulo à autonomia do aluno, como a Empower Every Student.

Mary Grace, que pesquisa o uso de soluções tecnológicas no ensino e tem um interesse especial na inclusão de alunos com deficiência, foi questionada pela plateia sobre o motivo da suposta resistência do professor à inovação. “A questão é que isso precisa ser feito junto com o professor”, disse. Segundo ela, uma linha de trabalho que tem dado certo é a de criar grupos interdisciplinares que unem professores mais preocupados com aspectos pedagógicos e outros  entusiasmados com as novas tecnologias. Para Mary Grace, “agora é mais simples” para o educador entender o potencial da tecnologia. “Quase todo mundo tem smartphone, laptops. Quando você consegue acesso mais fácil ao recurso, sobra mais tempo para pensar o pedagógico.”

Colocando alunos da escola públicas nas top particulares 

A outra palestrante da sessão, Maria Amélia Sallum, falou da parceria com a Geekie no projeto que lidera, o Ismart, concebido para selecionar alunos de alto potencial da rede pública, oferecer bolsas e auxílio pedagógico para colocá-los em escolas de ponta do ensino médio e depois garantir seu ingresso em universidades de primeira linha. O Ismart iniciou em 2014 um novo programa, o Ismart Online, para ampliar o acesso ao projeto. Recebeu cerca de 12 mil inscrições para as 400 bolsas que está concedendo por ano, metade delas destinada ao programa tradicional do Ismart, presencial, e metade para a versão online.

Os estudantes de escolas públicas têm acesso aos conteúdos de matemática e língua portuguesa, áreas em que têm maior defasagem em relação aos alunos da rede privada, pela plataforma online da Geekie. “Escolhemos a Geekie porque ela oferece um pacote completo, com diagnóstico, indicação de planos de estudo e um novo diagnóstico, além de permitir ao responsável pedagógico fazer um acompanhamento do rendimento do aluno”, disse Maria Amélia.

Performance e engajamento altos, custo baixo

A parceria foi bem-sucedida, como mostram os níveis de engajamento dos estudantes e seu domínio dos conteúdos. “A plataforma atraiu 80% dos estudantes”, disse Maria Amélia. “E 84% dos bolsistas ficaram nos níveis mais altos de proficiência.”

A intenção do Ismart é manter a colaboração com a Geekie, agora para dar suporte aos bolsistas durante o ensino médio nas escolas particulares. No final da sua intervenção, Maria Amélia fez um apanhado do que considera pontos positivos do uso da plataforma. “O diagnóstico em tempo real, que é o sonho de qualquer professor; o perfil adaptativo; a indicação de planos de estudo individuais; e o baixo investimento por aluno”, disse. “Além disso, ela fornece informações para a melhoria da aprendizagem e serve de ferramenta de apoio à atividade desenvolvida em sala de aula.”





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