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4 estratégias para potencializar o trabalho em grupo na sala de aula

Quais habilidades seus alunos desenvolvem com um trabalho em grupo? A consultora Silvana Tamassia, da Elos Educacional, divide aprendizados para trabalhar em equipe com intencionalidade pedagógica.

Depois de quase duas décadas neste novo século, trabalhar com competências e habilidades socioemocionais ainda é um grande desafio para o educador. De acordo com o estudo realizado pelo National Research Council, o aprendizado no século 21 está relacionado à capacidade de aplicar o que se sabe em situações novas. Essa habilidade, seja quando exercitada em circunstâncias da vida real ou dividindo conhecimento com outras pessoas, ajuda os estudantes a desenvolverem as competências do novo milênio: trabalho em grupo, liderança, argumentação, capacidade de resolver problemas, pensamento crítico, responsabilidade e iniciativa.  E como podemos desenvolvê-las em sala de aula?

Uma ótima estratégia é proporcionar aos alunos oportunidades de trabalhar em grupo. Mas, quando se fala de trabalho em grupo, muitas dúvidas e preocupações surgem na cabeça dos professores, não é mesmo?

Em minha trajetória como professora, pude vivenciar algumas delas e ouvir, também, as dúvidas de meus colegas. Talvez a principal delas seja como fazer com que todos os alunos participem e não sejam apenas coadjuvantes, podendo assim desenvolver as competências desejadas?

Muitas vezes, o trabalho fica centrado em um ou dois elementos do grupo enquanto os demais acabam não aproveitando esse importante momento de aprendizado. O trabalho em grupo é um conteúdo atitudinal e, como tal, precisa ser aprendido na prática, por meio da experiência do próprio trabalho em grupo, sob a orientação do professor. Não podemos acreditar que este tipo de conhecimento seja inerente ao ser humano. É preciso que o professor esteja aberto para desenvolver isto nos alunos, independente de qual seja a sua disciplina; afinal, essa é uma questão transversal, que perpassa por todas as áreas.

Pensando nisso, destacarei aqui algumas estratégias para superar esse desafio e aproveitar todo o potencial do trabalho em grupo:

Escolha uma atividade desafiadora que proporcione a reflexão e participação de todos

Muitas vezes, organizamos os alunos em grupos, porém, a atividade a ser desenvolvida não requer que o trabalho seja realmente feito em equipe.

O primeiro equívoco que cometemos é distribuir uma folha igual para cada aluno e pedir que trabalhem juntos. Se queremos que eles realmente trabalhem juntos, e se eles ainda não sabem muito bem como fazer isso, a melhor maneira é darmos uma única folha por grupo – assim, em primeiro lugar, será necessário que eles leiam e entendam juntos para que, em seguida, possam pensar coletivamente sobre o problema a ser resolvido, discutir, argumentar e decidir como irão solucioná-lo e registrar os resultados.

Ao refletirem juntos, os alunos aprendem a ouvir, argumentar, defender seus pontos de vista e chegar a um consenso sobre a solução que irão escolher.

Mas, para que isto aconteça, eles precisam de uma atividade que seja realmente desafiadora, ou seja, que possibilite que eles possam pensar sobre o tema e, sempre que possível, que ela tenha a possibilidade de diferentes soluções. Desse modo, os estudantes terão mais oportunidades de criar e poderão, ao concluir, confrontar os colegas para conhecer as possibilidades de resolução propostas pelos outros grupos.

Estabeleça papéis com funções definidas para cada membro do grupo

Outra questão acerca do trabalho em grupo é a dificuldade que algumas pessoas têm em colocar suas opiniões e serem ouvidas.

De acordo com Cohen e Lotan, autores do livro Planejando o Trabalho em Grupo – Estratégias para a Sala de Aula, os membros de um grupo possuem status que, muitas vezes, dificultam a participação e a integração de todos. Em muitos casos, a opinião de um aluno com menor status social acaba sendo desvalorizada por seus pares. Por outro lado, alunos com maior facilidade e desempenho acadêmico superior em determinada disciplina tendem a ter sua opinião mais valorizada e se tornam uma referência no grupo.

Para garantir que todos participem, você pode usar uma estratégia apresentada no livro que sugere a definição de papéis específicos. Eles contribuem para que todos os membros do grupo possam, em algum momento, desempenhar o função de líder no grupo e em outro, por exemplo, ser o responsável pela organização e distribuição de materiais.

Os papéis podem ser:

  • O mediador: Ele irá mediar a conversa dentro do grupo, estimular que todos participem e que estejam compreendendo a orientação das atividades.​
  • O relator: Ele é responsável pelo registro e é orador da turma, quando necessário.​
  • O monitor de recursos: Ele irá garantir que não falte nada para que o grupo consiga realizar sua atividade.​
  • O Cuco: Ele vai controlar o tempo da atividade, estipulado previamente pelo professor.
  • O harmonizador: Ele deve garantir que todos estejam se sentindo confortáveis, felizes e engajados.​

Para que essa organização do trabalho em grupo funcione, dois pontos precisam ser observados:

  • Os papéis precisam circular no grupo. Não podemos correr o risco de que sempre as mesmas pessoas sejam o monitor ou o harmonizador, por exemplo. Todos precisam transitar pelos diferentes papéis para que possam se desenvolver e aproveitar ao máximo o potencial da atividade.
  • Os papéis não definem quem será o responsável por resolver a situação problema proposta pela atividade. Todos devem opinar e se sentir responsáveis por solucioná-la e finalizá-la.

Decida o tamanho e as pessoas do grupo em função de seus objetivos

Como em toda a atividade pensada para a sala de aula, o trabalho em grupo também precisa ser planejado com base no objetivo da aula. Em primeiro lugar, o professor precisa pensar se a estratégia de trabalho em grupo é a mais adequada para o objetivo daquele dia.

Em segundo lugar, ele deve pensar em qual o tamanho do grupo para atender este objetivo. Podemos trabalhar em duplas em alguns momentos onde seja importante que, em pares, eles discutam sobre um tema ou um desafio, e que troquem informações a partir de seus conhecimentos prévios. Podemos trabalhar, também, com grupos de 4 a 5 pessoas, de modo que todos tenham oportunidade de falar e interagir. Grupos muito grandes dificultam as trocas e a participação de todos de maneira profunda, por isso é importante dispensar um olhar atento à organização para que isso não aconteça.

De acordo com Masetto, autor do livro O Professor na Hora da Verdade, o ideal é que os grupos não ultrapassem o número máximo de 5 participantes para que se mantenha a produtividade e participação de todos.

O professor também pode definir quem serão os componentes do grupo. Em alguns momentos, eles mesmos podem se organizar por afinidades ou interesses. Mas, em outros momentos, o professor deve planejar também os agrupamentos, pois eles podem ajudar no direcionamento para o trabalho em prol do objetivo.  São os chamados “agrupamentos produtivos”. Algumas vezes, é importante pensar nos saberes dos alunos para agrupá-los; pode ser por saberes próximos, pode ser por saberes complementares – a definição dependerá, de novo, do objetivo da aula. Outro critério, também importante, é o grau de afinidade para que haja trocas e reflexões conjuntas. Se os alunos tiverem algum problema de relacionamento, talvez não seja esse o melhor agrupamento, pois precisarão trabalhar essas questões em outro momento para que o trabalho em grupo flua de maneira produtiva.

Ao fim do trabalho em grupo, permita que eles compartilhem suas estratégias e soluções

Um momento bastante rico e que irá ajudar no desenvolvimento das competências de comunicação é a socialização de suas discussões dentro do grupo.

Planeje a atividade para que, ao fim do trabalho em grupo, cada equipe tenha a oportunidade de compartilhar com os demais: quais foram suas reflexões e descobertas, quais foram os caminhos que escolheram para isso, como e por quê escolheram este caminho.

Esse momento é bem relevante para que os alunos possam aprender a ouvir uns aos outros, apresentar seus argumentos, mostrar os caminhos percorridos pelo grupo e ter acesso a novas estratégias que podem ser diferentes das que haviam pensado inicialmente.

A depender do tempo da aula, nem sempre será possível ouvir todos os grupos. Então, ao planejar a aula, o professor já deve pensar em quanto tempo terá para ele e quantos grupos irão participar. Para que mais grupos participem, um time pode também apresentar seus resultados e os próximos trazem os pontos complementares ou divergentes, ou seja, não precisam repetir a mesma informação se tiverem chegado aos mesmos resultados.

O professor também pode promover um rodízio para que, em cada aula, parte da turma compartilhe suas descobertas dentro do tempo disponível. Para isso, ele precisa organizar um registro para saber quem já falou para que não sejam sempre os mesmos e possa garantir oportunidade para todos.

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Concluindo…

Como destacamos no início, o trabalho em grupo favorece o desenvolvimento de algumas competências socioemocionais, mas requer atitudes que precisam ser exercitadas na prática. Cabe ao professor planejar esses momentos de maneira propositiva, pensando não só nos conteúdos que os grupos irão trabalhar, mas também em como irão trabalhar, como estarão organizados e quais as melhores atividades para isto.

Se você já desenvolve essa estratégia em suas aulas, reflita sobre os pontos indicados aqui e identifique se ainda há pontos em que poderia melhorar! Agora, se você ainda não faz uso sistemático do trabalho em grupo nas suas aulas, pense em como começar a inserir esses momentos em sua prática. Você verá que, apesar de parecer complexo gerir os alunos desta maneira, você terá ganhos importantes no médio e longo prazo, pois os alunos estarão mais autônomos e desenvolverão competências que não são possíveis em um papel mais passivo durante a aula.

Com o trabalho em grupo, o aluno se torna ativo em seu processo de aprendizagem e aprende não só com o professor, mas também com seus colegas, formando uma grande comunidade de aprendizagem dentro da sua sala de aula.

Leia mais da nossa colunista Silvana Tamassia:

* Silvana Tamassia é formada em Pedagogia com especialização em Psicopedagogia e Educação Infantil pela UNIA e mestre em Educação pela PUC-SP, na linha de pesquisa sobre formação de professores. Tem 22 anos de experiência na área da educação, a maior parte deles como professora de Ensino Fundamental e coordenadora em escola pública. Foi premiada em 2007 com o Prêmio Escola Nota 10, concedido pela Fundação Victor Civita da Revista Nova Escola, na sua primeira edição para gestores. Atualmente, é consultora educacional da Fundação Lemann no Programa de Técnicas Didáticas e Gestão para a Aprendizagem e sócio-fundadora da Elos Educacional atuando em parceria com a Fundação Lemann na coordenação dos Programas de Formação de Professores e Gestores. Para dúvidas ou sugestões, escreva para silvanatamassia@eloseducacional.com.

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