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Qual sua desculpa para não usar tecnologia na escola?

Perguntei aos meus colegas por que não usavam tecnologia em sala de aula. Estas são suas respostas – e minhas dicas para superar as dificuldades.

Meu primeiro contato com tecnologia foi lá em 1995, quando meu pai trouxe um convite para um curso de DOS, Office, Windows 95 e Internet. Dentre todas as aulas, as que mais me maravilhavam era as que envolviam Power Point – então, com pouquíssimos recursos – e as de Internet. Aquilo era uma verdadeira maravilha: conseguia baixar imagens, animá-las e outras coisinhas assim.

Lógico que, de lá para cá, absolutamente tudo mudou. Coincidentemente, na minha última coluna recebi alguns emails que argumentavam sobre o porquê de não se usar tanta (ou nenhuma) tecnologia nas próprias aulas. Fiz uma pesquisa rápida com velhos companheiros de sala e obtive um breve relatório com itens que contribuem para essa dificuldade. Selecionei os 5 itens que considero mais impactantes e, agora, gostaria de compartilhar com vocês:

“Se eu aderir de vez à tecnologia, perderei meu emprego”

Muito pelo contrário! Aí é que você vai mantê-lo! Falo por experiência própria: a partir do momento em que definitivamente abracei a ideia e me joguei de cabeça, surgiram mais convites para tudo que você possa imaginar, inclusive novas oportunidades de trabalho. Desde que feito um planejamento sério e que tudo seja feito com cuidado e carinho, a tecnologia vai fazer a balança pender a seu favor.

“Dificilmente seremos engolidos por professores virtuais, feitos de metal, que tudo entendem de raciocínio, mas nada entendem de coração”.

A tecnologia deve contribuir com o seu trabalho, trazer novas possibilidades, não substituir o professor. Precisamos nos lembrar de que nós, humanos, saímos em vantagem disparada: temos emoção, sensibilidade e entendimento do outro. E, isso, vai demorar para que qualquer computador simule com perfeição. Se você assistiu Os Vingadores 2: Era de Ultron, sabe que o Ultron só foi derrotado por conta da falta de emoção, embora fosse uma máquina mais que perfeita.

Se você trabalha em sala de aula, não tenha receio nenhum de mostrar-se um entusiasta ou mesmo parceiro da tecnologia. Dificilmente seremos engolidos por professores virtuais, feitos de metal, que tudo entendem de raciocínio, mas nada entendem de coração. A tecnologia vai ajudar a melhorar a educação, mas não vai substituí-la.

“Não domino nada de tecnologia”

Francamente? É melhor buscar socorro!

Lembro-me de que, nos anos 80,  havia perto da minha casa um senhor muito amigável chamado Alberto. Seu Beto, como era conhecido, fora por muitos anos dono de uma escola de datilografia. Era um ambiente enorme, cheio de máquinas de escrever e espaço de manutenção. Havia uma moça muito bonita na recepção e o lugar era limpíssimo, mantendo aquele cheirinho de óleo de máquina e o “tec-tec” incessante dos alunos.

Não é preciso muito esforço para entender porque Seu Beto foi engolido pelo som das teclas do computador. É triste, mas é a realidade! Pense no mundo 10 anos atrás: estávamos maravilhados com o MP3 e o formato HD, criando contas no Orkut, buscando tudo no Yahoo (usávamos o Cadê, também), alugando DVDs, passando raiva com o Windows Vista e navegando em internet banda larga de 1GB. Tudo isso ficou no passado.

Hoje, a tecnologia avança a passos gigantescos, e torna-se cada vez mais barata e acessível. E, inegavelmente, ela chegou à sala de aula. Prova disso é que você está agora lendo num portal educacional online. Caso você realmente não domine nada, tente se matricular num curso ou mesmo assistir a tutoriais disponíveis no YouTube – embora, com a prática, eu já entenda de muita coisa, frequentemente recorro a ele.

“Aprender é prazeroso, útil e divertido. E em nosso caso, muito em breve, será vital”.

Creio que, atualmente, o fator econômico pesa bastante na hora de utilizar ou não a tecnologia em sala. Não sou hipócrita de achar que é meramente culpa do educador, enquanto eu atuo numa escola particular de classe média e tenho todo tipo de recurso a meu favor. Mas serei bem franco: tenho vários colegas, aqui e em outras escolas, que, mesmo tendo acesso ao mesmo que tenho, não utilizam os recursos. Alguns, por não saberem, outros, por não quererem. E aí, tenho propriedade para afirmar: a esses, a cobrança já começou. E tende a ser maior com o passar do tempo. Então, se esse é o seu caso mova-se! Aprender é prazeroso, útil e divertido. E em nosso caso, muito em breve, será vital.

“Não encontro nada que tenha relação com a minha disciplina”

Leciono Língua Portuguesa, a disciplina mais ingrata do mundo virtual. Digo isso por conta da dificuldade em encontrar qualquer material extra que não seja uma apostila, atividade ou lista de exercícios – ou seja, apenas uma cópia do material físico, o que não chega a ser inovador. Meu grande desafio foi pensar e criar algo que ultrapassasse os materiais disponíveis.

Pode-se usar várias ferramentas do Google para as mais diversas disciplinas. O próprio Earth, para quem leciona Geografia, é fantástico. Para quê enxergar em mapas impressos e imaginar as coisas se você pode caminhar pelo local desejado? História? Acesse vídeos da Segunda Guerra Mundial e mostre o horror bélico para seus alunos. Tradutores, animações do corpo humano, games, tudo isso está disponível de forma gratuita na web. Basta buscar.

Hoje, utilizo todo tipo de mídia nas minhas aulas e nada foi baixado. Foi construído. Basta ter um pouquinho de tempo e criatividade e tudo fluirá bem.

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“Isso vai me tornar menos respeitado”

Honestamente, essa resposta me surpreendeu! Vou citar um exemplo: no início da minha carreira, eu era um carrasco. Achava que, quanto mais reprovasse e aterrorizasse, maior seria o respeito que todos teriam por mim. Estava totalmente enganado!

Se você não tem o hábito, tente ao menos uma vez surpreender seus alunos com uma aula dinâmica e cheia de novidades. Vai ser um choque de realidade! Quando percebi a importância de tentar sempre inovar, mesmo sendo nas coisas mais básicas, o ambiente dentro da sala mudou.

“É uma moeda de troca interessante: seu esforço ‘compra’ a atenção dos alunos, o respeito dos pais e a parceria de seus gestores”.

É uma moeda de troca interessante: seu esforço “compra” a atenção dos alunos, o respeito dos pais e a parceria de seus gestores. Não há nenhum motivo para temer. Um professor temido não é necessariamente respeitado. Estabeleça limites, mas seja criativo. Transmissor de conteúdo, o Google já é. Aliás, melhor do que eu, você e qualquer um que estiver lendo. O que nós temos, acima de qualquer algoritmo, é percepção, sensibilidade e paixão para podermos transformar ideias em atos. E isso, sim, junto a uma boa dose de mídias e animação (digital e física) em sala de aula é que trará belos resultados.

“Dá muito trabalho”

Comecei minha jornada dentro desse mundo com reles slides escaneados da gramática que usava. Usava um ou outro clipart para tornar a aula “menos chata”. Daí, parti para utilização de GIFs animados, que melhoraram muito minha recepção em sala. Certa vez, nas férias de 2009 e de molho em casa – meu segundo filho acabara de nascer – resolvi fuçar no Movie Maker e aprendi a editar vídeos, mesmo que de uma maneira meio tosca. Foi quando resolvi pegar tudo o que tinha, jogar fora e começar do zero.

Todo esse trajeto me trouxe até aqui: hoje, posso afirmar sem vergonha nenhuma que não consigo mais dar aulas da maneira tradicional! Dá trabalho? Dá, sim, muito mesmo. É preciso planejar especificamente para cada turma. Buscar vídeos, baixar músicas, imagens, tabelas. Mas, acima de qualquer recurso, é necessária muita, mas muita criatividade.

Por exemplo, tenho um slide especial em que explico a formação do imperativo por meio de cenas do filme Crepúsculo. Lógico que acaba direcionado para o lado cômico, mas cumpre muito bem o seu papel. Nessa aula, em especial, gastei três noites para ficar do jeito que queria. Para criar meu maior material, o Narrador de Exercícios, gastei todo o ano de 2014, dedicando uma média de 3 a 4 noites por semana. E, de ano em ano, atualizo a parte musical. Enfim, tudo que produz bons frutos é trabalhoso. Mas posso garantir: é um trabalho muito compensador!

Espero poder inspirar alguém a mudar de postura, de objetivo. Lembrem-se de que tudo que eu uso está disponível gratuitamente e de forma ampla. Busque mais, queira mais para seus alunos. O seu trabalho será mais importante e mais reconhecido, fazendo com que, inevitavelmente, você seja mais respeitado e até melhor pago. Isso aconteceu comigo – mesmo sem que eu diretamente desejasse – e pode acontecer com você.

O papel dos professores precisa mudar! Eu, você e todos nós seremos facilitadores no processo de aprendizado, em vez de cumprir nossa função de professores tradicionais. Graças às novas tecnologias, o trabalho dos estudantes em casa e na escola vai mudar radicalmente. Aliás, já está mudando.

Não queira ser o Seu Beto de sua escola, casa ou geração. Eu nunca quis e continuo não querendo ser. Encontre-se! Divirta-se! Muitos falam do amargor de nossa profissão, sem nem tentar algo que a torne mais doce. Eu tentei. Eu consegui. E espero de coração que muitos (senão todos) encontrem esse caminho também.

* Leonardo Freitas é graduado em Letras pela Universidade Católica, com especialização em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília. Leciona há exatos 16 anos, e desde pequeno queria ser professor. Já passou por todos os níveis, desde o fundamental I ao superior. Hoje, trabalha com seis turmas de 8º ano em uma escola particular de Brasília.

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