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“O papel dos professores está muito desvalorizado no país”, diz brasileiro indicado a “Nobel da educação”

O paulista Márcio Andrade Batista, mestre em engenharia química e doutorando na área, mudou-se em 2010 para Barra do Garças (MT) para atuar como professor e pesquisador na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). Além do trabalho na universidade, Márcio ainda dá aulas como voluntário e coordena um projeto de iniciação científica em parceria com a universidade e o SENAI para jovens da região. Apesar de não gostar de fazer alarde sobre seu trabalho e preferir ver seus estudantes ganhando prêmios, Márcio é um dos 50 finalistas (e o primeiro brasileiro) do “Global Teacher Prize” 2016, considerado o “Nobel da Educação”.

O prêmio foi criado em 2014 pela Fundação Varkey, uma organização sem fins lucrativos criada para melhorar os padrões de educação para crianças carentes em todo o mundo. Os finalistas foram escolhidos dentre milhares de aplicações e indicações vindas de 148 países e o vencedor, a ser conhecido em março deste ano em uma cerimônia em Dubai, receberá US$ 1 milhão. Em uma entrevista exclusiva para o InfoGeekie, Márcio discute o papel social do professor e lamenta a desvalorização da profissão.

Quais são os critérios para a seleção dos finalistas do prêmio?

Eles levam em conta tudo o que o professor realizou desde o começo da carreira, avaliando o seu impacto na sociedade em que está inserido, como seu trabalho tem contribuído para a valorização da profissão, o número de alunos que orientou e o que eles já alcançaram, entre outras coisas.

Para o senhor, o que significa ser um bom professor?

Acredito que um bom professor é aquele que se interessa não só em dar aula, mas também em ajudar a comunidade em que vive e em incentivar os jovens a questionar a sua realidade. Também acredito que se pode avaliar o trabalho de um professor pelas conquistas obtidas por seus alunos. Hoje, eu me sinto muito realizado quando vejo um aluno meu sendo reconhecido, recebendo um prêmio. Isso é prova de que meu trabalho é de qualidade. É uma pena que a nossa imagem esteja tão desgastada e desvalorizada no Brasil.

Li uma entrevista em que o senhor disse que jogadores de futebol têm muito mais reconhecimento do que professores. Por que acha que o país valoriza tão pouco o professor?

Eu disse isso, mas não quero dar a impressão de que estou desvalorizando o futebol. Eu gosto muito de futebol – sou corintiano – e não tenho nada contra um jovem almejar ser um jogador de sucesso (eu mesmo já tive esse sonho quando criança). O que me preocupa é o fato de estarmos apresentando esse como o arquétipo de pessoa bem-sucedida. Tudo bem existir esse modelo, mas temos que apresentar também o do matemático, do químico, do professor, do cientista.

O que fez com que decidisse se tornar um professor?

Foi um professor fantástico, que me dava aulas de matemática e física em 1988, quem me apresentou a ciência. Ele nunca me disse “seja um professor” ou “seja um pesquisador”, mas me mostrou que existia esse caminho e que a natureza pode ser compreendida com um pouco de esforço. Foi o que decidi buscar, e hoje tento inspirar meus alunos a fazer o mesmo.

E de que forma o senhor incentiva seus alunos a seguir essa profissão?

Eu sempre falo para eles que a maior vantagem da carreira de professor é o poder que ela nos dá para transformar vidas e a nossa própria realidade. É claro que a pessoa precisa ter boa vontade e sentir que é capaz de causar uma profunda transformação, e não se pode esperar que isso ocorra de forma rápida. Na educação é preciso tempo para ver resultados. Você tem que saber que é um caminho com mais espinhos do que pedras, mas esses espinhos vão ser edificantes para o futuro. Eu sei que vou morrer, mas minhas ideias vão ficar entre meus alunos. Isso, para mim, é algo muito próximo da imortalidade.

O que acha que pode ser feito para que os professores sejam mais valorizados no Brasil?

É preciso investimento do governo em um plano de progressão de carreira e qualificação dos professores, com acesso a bolsas de estudo e intercâmbio, por exemplo, além de melhor infraestrutura nas escolas. Mas acho que a mídia também tem um papel fundamental nisso. Se ela começar a apresentar a ideia de que ser professor e fazer ciência é legal, a gente vai dar um salto gigantesco no sentido de melhorar a imagem. Há um tempo descobri um vídeo de uma “youtuber” com milhões de seguidores ensinando como responder seu professor de maneira completamente desrespeitosa. Eles dizem que é um vídeo de humor, mas como pode ser humor desrespeitar uma pessoa (ou uma toda uma classe) dessa forma? E o vídeo teve 6 milhões de visualizações e 250 mil likes. Se eu fizer um vídeo de ciência e tiver 100 visualizações, será um feito extraordinário.

Aproveitando que o senhor mencionou o YouTube: acha que ferramentas como essa podem ser usadas na educação?

Fico impressionado em ver como é possível para um único vídeo atingir todas as camadas sociais. Se usarmos essas redes para convencer 6 milhões de jovens a pensar em soluções para problemas da humanidade, teremos milhares de ideias criativas. Precisamos, sim, usar essas ferramentas para educar e mostrar que a ciência pode ser um caminho incrível.

Como vê a tendência mundial pela inovação na educação? Você é a favor de usar a tecnologia na sala de aula?

Se houver recursos disponíveis, como tablets e plataformas educacionais, isso pode ser maravilhoso. Mas, no Brasil, precisamos trabalhar com as peças que temos – procurando fazer um uso criativo delas, de preferência. Eu procuro inovar com aquilo que tenho à minha disposição. Estou com um projeto envolvendo uma história em quadrinhos, por exemplo, mas estou tocando sem esperar apoio do governo, pois esses processos são muito burocráticos e levam tempo.

Em relação à abordagem, costumo trabalhar com um modelo semelhante ao socrático, que envolve ensinar fazendo perguntas e provocações aos alunos. Sempre proponho a eles resolver problemas do cotidiano utilizando a ciência e os recursos naturais disponíveis aqui no Mato Grosso. Nós temos, por exemplo, o baru, que é um tipo de castanha comestível que você pode comprar por uma mixaria. Mas ela também pode ser transformada em outros produtos valiosos, e eu quis dar aos alunos essa percepção. No fim, uma aluna minha, Bianca de Oliveira, ficou em terceiro lugar no Prêmio Jovem Cientista em 2012 com um projeto de criação de farinhas integrais a partir dessa castanha.

Se ganhar, o que pretende fazer com o prêmio?

Montar uma escolinha de soldadores. Meu doutorado é em soldagem e quero ensinar isso como um oficio para formar futuros empreendedores. Sabendo fazer isso, os jovens podem fazer um portão, um cestinho, e quem sabe abrir seu próprio negócio. O Importante é tirar a molecada da rua.

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