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Novas competências pedem novas formas de avaliação

Como podemos perceber evidências de aprendizagem em métodos avaliativos nos dias de hoje? Marcela Lorenzoni debate neste artigo estratégias de avaliação que exploram as competências gerais e que podem ser boas aliadas da escola. Leia: 

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Com a Base Nacional Comum Curricular de Educação Infantil e Ensino Fundamental recentemente homologada, talvez nunca tenha se discutido tanto o trabalho de competências e habilidades na escola quanto em 2018. Não que a pauta seja nova entre pessoas educadoras – lembro de uma entrevista com o professor José Moran em que ele riu: “isso que estamos colocando como educação inovadora, eu venho falando desde a década de 70”! O que, então, nos impede de cruzar a ponte entre teoria e prática?

O fato de hoje o próprio Ministério da Educação orientar o desenvolvimento de 10 competências gerais (dentre as quais o conhecimento figura como apenas uma), em caráter normativo e âmbito nacional, reforça decisões e ações da escola nesta direção; afinal, não se trata de um movimento baseado em achismos. Porém, para além de documentos direcionadores, isso implica essencialmente em uma mudança de planejamento, rotina de sala de aula, formação da equipe docente e, é claro, formas de avaliação da aprendizagem.

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Para que serve a avaliação?

Avaliação não é sinônimo de prova. Ou melhor dizendo, a prova escrita com que estamos acostumadas/os é apenas uma dentre muitas formas de avaliar a aprendizagem; seja de cunho diagnóstico, formativo ou somativo, como um resultado do processo. E, por mais que ela tenha seu papel ao apontar quais conteúdos foram ou não absorvidos, temos que admitir que parece desafiador (ou mesmo improvável) compreender o desenvolvimento de habilidades e competências por meio de uma questão de múltipla escolha.

Para isso, precisamos diversificar nossas evidências de aprendizagem.

Evidência, vamos adiantar aqui, pode significar tudo que eu possa guardar e mostrar para outra pessoa: uma prova, sim, mas também uma produção artística, um vídeo, uma gravação, uma imagem, um texto, um experimento. Ou seja, aquilo que estudantes falam e fazem também são estratégias válidas de avaliação.

Além disso, as evidências de aprendizagem precisam ser pensadas desde o início do processo de preparação de aula – algo que autores como John Biggs e Grant Wiggins chamam de “começando pelo fim”. Quer dizer: em vez de planejar primeiro qual assunto vou abordar e como montar meus slides, preciso me perguntar “o que quero que minha turma aprenda e desenvolva ao fim deste tema? Como posso atestar que atingi estes objetivos?”. Apenas aí poderei estruturar minha aula pensando em conteúdo, recursos, espaços, metodologias e pessoas necessárias.

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Algumas formas práticas de avaliar competências

“Não esperaríamos que pilotos pilotassem um jato moderno sem qualquer formação, mas é exatamente isso que estamos esperando dos nossos professores e instrutores”.

A frase acima pertence ao pesquisador A. W. Tony Bates e reflete com bastante precisão nosso momento atual. Estamos exigindo de nossa equipe docente uma missão para qual ela não foi preparada em sua jornada acadêmica ou profissional (aqui, um parênteses: mesmo esta formação sendo realizada de forma mais constante e sistemática em escolas e universidades, o avanço exponencial de tecnologias digitais e configurações sociais do mundo globalizado sempre vai exigir que estejamos em constante formação).

Para dar um pontapé inicial neste aumento de repertório, selecionei abaixo duas estratégias de avaliação que observei em escolas parceiras da Geekie:

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Rubrica para autoavaliação

A rubrica é uma ferramenta incrível para promover a autoavaliação de cada estudante, destrinchando uma tarefa em diferentes expectativas de desempenho e pedindo que eles reflitam sobre sua prática – o foco sai do resultado final e passa ao processo de aprendizagem em si. Podem ser avaliadas as dimensões de esforço e dedicação, proficiência ou avanço pelas etapas de uma atividade, habilidades exercitadas e assim por diante.

Uma boa rubrica dá trabalho (e cada atividade exige uma rubrica própria), mas em linhas gerais, você pode começar tendo: (1) uma descrição compreensível e detalhada da tarefa a ser executada (a pessoa que a recebe tem que saber exatamente pelo que está sendo avaliada e o que se espera dela); (2) uma escala que descreva os diferentes níveis de desempenho de maneira gradativa. Acima de tudo, a rubrica deve ser aplicada com caráter formativo, possibilitando que a professora ou professor dê feedbacks e orientações individuais e que o próprio aluno tenha clareza de como melhorar.

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Feedback 360º

A avaliação ou feedback 360º é uma prática que migrou de empresas inovadoras para escolas e nada mais é que uma forma estruturada, segura e saudável de se discutir o desenvolvimento de cada pessoa ao longo de um projeto ou determinado período de tempo. Como funciona?

A primeira etapa pode ser aplicada de forma escrita ou com um formulário digital. Ela consiste em uma autoavaliação e na avaliação de seus pares. Por exemplo, em um trabalho em grupo, eu analiso minha própria participação e desempenho, assim como a de cada um de meus colegas. Para isso, é importante haver perguntas direcionadoras que garantam uma reflexão construtiva e empática.

Em seguida, realiza-se a socialização das avaliações: a aluna ou aluno fala sobre si, abrindo em seguida para que o grupo concorde, discorde ou acrescente algo à sua avaliação. Isso ocorre com cada membro do grupo e, no fim, a professora pode pedir ainda uma avaliação geral do trabalho coletivo – como a equipe, como um todo, se saiu?

Em ambas as técnicas avaliativas acima, tiramos o estudante do papel passivo de quem recebe uma nota e começamos a promover seu autoconhecimento, mentalidade de crescimento, empatia e responsabilidade. A avaliação, também, reforça seu papel formador, sendo usada para direcionar e ampliar o desenvolvimento, em vez de ser apenas a conclusão definitiva de um processo já encerrado.

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*MARCELA LORENZONI É ESPECIALISTA EM GESTÃO DA EDUCAÇÃO NO NOVO MILÊNIO PELO INSTITUTO SINGULARIDADES E BACHAREL EM COMUNICAÇÃO SOCIAL PELA PUC-PR. ANTES DE ENTRAR NO UNIVERSO DE STARTUPS DE TECNOLOGIA EDUCACIONAL, FOI PROFESSORA DE INGLÊS EM ESCOLAS DE IDIOMAS, ESCOLAS PARTICULARES E NO EXTERIOR. HOJE, É CONSULTORA PEDAGÓGICA DA GEEKIE. É APAIXONADA POR PROTAGONISMO ESTUDANTIL, TEMA QUE DISCUTIU NO ECOSOC YOUTH FORUM, NA SEDE DA ONU EM NOVA YORK.

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