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O que a neurociência tem a dizer sobre a autoestima em tempos de “Baleia azul” e “13 Reasons Why”

Num momento em que pais e educadores discutem o suicídio adolescente, Kátia Chedid discute a autoestima desses jovens de acordo com a neurociência. Confira:

Nas últimas semanas, pais e educadores estão debatendo dois assuntos: o jogo da Baleia azul (Blue Whale), que se iniciou na Rússia e espalhou-se rapidamente pela internet, e a série “13 reasons why”, baseada no livro de mesmo nome, de Jay Asher. O que eles têm em comum e o que a neurociência pode dizer sobre isso?

Ambos acessam a vulnerabilidade de jovens, podendo levá-los a comportamentos extremados, como o suicídio, por exemplo. Eles são destinados a adolescentes e chegam num momento frágil para a família: quando os adolescentes estão mais expostos e a família, por sua vez, tem mais dificuldade em lidar com seus sentimentos de forma construtiva.

No livro A autoestima do seu filho, Dorothy Briggs constrói um caminho para que a autoestima seja desenvolvida de forma saudável. Ela sugere que devemos ajudar a criança a desenvolver o autorrespeito sólido, baseado em duas convicções básicas:

  1. Eu posso ser amado e
  2. Eu tenho valor.

Dorothy explica como devemos comunicar aos nossos filhos nosso amor e ajudá-los a ter segurança. Também explica a linha tênue entre a falta e o excesso, recomenda a atenção concentrada e sugere encontros verdadeiros – onde os pais estejam presentes e prestem atenção nos seus filhos, reservando tempo para ouví-los. Nesse livro, lemos sobre a segurança do não-julgamento, a segurança de ser amado, a segurança de possuir sentimentos, a segurança da empatia e do crescimento individual.

Esse investimento deve ser feito na infância, porém, estamos falando sobre a fragilidade da adolescência. O que posso afirmar que a autoestima autêntica não irá impedir que um adolescente fique deprimido ou suscetível, mas é provável que o ajude a readquirir uma boa saúde mental, além de ajudá-lo a criar mecanismos de defesa e ajuste diante de alguns obstáculos.

O que quero dizer com autoestima autêntica?

Existe uma indústria da autoestima que ganha milhões com a promoção de uma autoestima superficial e efêmera. As principais características de quem tem uma autoestima superficial são as seguintes, segundo Feinstein:

  1. Depender de posses materiais, baseando a sua identidade no carro, roupas, forma física e dinheiro, por exemplo;
  2. Denegrir os outros em benefício próprio, apresentando comportamentos ameaçadores para se reforçarem. São os valentões, os que praticam bullying, os que fazem fofocas que prejudicam seus colegas. Eles se sentem fortalecidos enfraquecendo o outro. Com certeza, não exercitaram a empatia e não conseguem se colocar no lugar dos outros;
  3. Precisar da moda, do status social ou cultural para se autodefinirem. O marketing e as imagens difundidas pelos meios de comunicação, apoiados por uma sociedade e a pressão dos seus pares, se tornam parâmetros para a autoestima. É muito difícil um adolescente afirmar que não precisa de algo que está na moda porque se sente bem consigo mesmo;
  4. Depender de soluções instantâneas e aplausos;
  5. Estar excessivamente concentrados na gratificação instantânea ou no egocentrismo;
  6. Desenvolver personalidades artificiais ou representar continuamente um papel;
  7. Consumir substâncias químicas para aumentar suas sensações;
  8. Abandonar a escola ou seus projetos;
  9. Deprimir-se.

Ao contrário desse quadro, segundo a mesma autora,  a “autoestima autêntica surge quando as pessoas alcançam um equilíbrio emocional-cognitivo que lhes permite sentirem-se bem consigo mesmas e serenamente confiantes”: gostam de quem são, estão dispostas a correr riscos calculados, conseguem reconhecer seus pequenos e grandes êxitos , estão dispostas a assumir responsabilidades e são capazes de se doar aos outros sem expectativas, pois, apesar de apreciarem um retorno honesto, não dependem de aplausos para agir.

O que a neurociência diz sobre a autoestima

A autoestima é uma interação emocional-cognitiva desenvolvida, existente entre áreas límbicas e o córtex frontal do cérebro. As redes neuronais associadas à autoestima são construídas ao longo do tempo através da linguagem, da reflexão, do apoio em aprendizagens anteriores. Através das experiências, o cérebro torna-se cada vez mais confortável e a autoestima é desenvolvida através da aprendizagem, modelação e avaliação.

O principal objetivo do nosso cérebro é manter-se vivo, e isso inclui a manutenção de um sentido positivo do Eu. Todos queremos ser alguém validado pelos outros e isso só será possível se tivermos segurança emocional e uma autoestima autêntica. As principais características de uma pessoa com a autoestima autêntica são as seguintes:

  1. Agir com integridade, tendo presentes em suas ações a responsabilidade, a harmonia psicológica, sinceridade e consistência. Possuem alegria interior, são dignas de confiança e conseguem sentir um orgulho real;
  2. Têm maiores probabilidades de constituir laços emocionais com os outros e possuem na memória muitas experiências de afirmação positivas;
  3. Possuem um sentido de objetivo ampliado, global;
  4. Aceitam os outros em sua diversidade;
  5. Têm capacidade de rir de si mesmos e costumam ter um humor saudável;
  6. Estão dispostas a procurar ajuda de colegas e especialistas;
  7. Têm um melhor desempenho acadêmico e apresentam confiança em continuar tentando diante das dificuldades;
  8. Estão motivados na escola;
  9. Têm menos problemas disciplinares;
  10. Relacionam-se bem com colegas e professores.

Portanto, professores e pais devem trabalhar juntos para auxiliar no desenvolvimento da autoestima e da autonomia, além de estarem atentos e presentes, apoiando os adolescentes nos momentos de dificuldade e fragilidade. Só o respeito à sua originalidade permite o desenvolvimento da capacidade individual. A aceitação e validação são fatores essenciais na construção de uma autoestima autêntica.

Leia mais: How empathy is important for parents and teens when things get stressful (em inglês)

* Kátia Chedid educadora e psicopedagoga, além de já ter trabalhado como coordenadora pedagógica, orientadora educacional e diretora escolar – no total, Kátia conta com mais de 30 anos de experiência na área. Tem extensão em Neuropsicologia e especialização em Neurociência. Ministrou cursos e palestras como “Contribuições da neurociência para a prática na sala de aula” e “Educação e Neurociência” e tem artigos publicados em seu site, katiachedi d.com e em seu grupo Neurociência e educação no Facebook. Atualmente é Conselheira do CIPI (Conselho Independente de Proteção à Infância), professora no MBA de Gestão Escolar na ESALQ USP, palestrante na Casa do Saber e diretora escolar da Rede Alix – Colégio Madre Alix.

Leia mais de Kátia Chedid no InfoGeekie:

3 Comments

  1. 4 de maio de 2017 at 11:24 — Responder

    Muito esclarecedor! Em tempos de tantos problemas emocionais dos adolescentes e da sociedade como um todo, vemos ausência de amor verdadeiro na família, o amor que impõe limites, dá espaço para o aprendizado de vida com todas as frustrações e tristezas, apoiando esses momentos com respeito , onde há espaço para o diálogo, o ouvir, aumentando assim a autoestima e a empatia, reforçando os laços!
    Amor verdadeiro significa ser firme com os filhos e pressupõe muito esforço e atenção, o que ,infelizmente, hoje em dia, falta tanto!
    Vemos tantos adultos “adolescentes”…
    A autoestima só pode ser estimulada pela família se os pais a tiverem também. Só damos aquilo que temos.

  2. 11 de maio de 2017 at 23:58 — Responder

    MUITO OBRIGADA PELO ARTIGO TÃO ESCLARECEDOR DEUS OS ABENÇÕE E LHES DE A SABEDORIA

  3. 27 de maio de 2017 at 10:35 — Responder

    Em templos de conflitos, ler a esse artigo é pensar na velha frase “Há luz no final do túnel”… Gratidão pelo compartilhar .

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