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Por que metodologias ativas de aprendizagem não funcionam na América Latina?

Se você, educador, precisasse escolher, qual tipo de aula diria que mais promove o aprendizado – uma aula expositiva ou uma aula baseada em metodologias ativas de aprendizagem?

Para quem trabalha diariamente em busca de uma Educação mais inovadora, a resposta parece óbvia. Apostamos todas as nossas fichas na segunda opção: queremos estudantes mais autônomos, protagonistas, capazes de construir uma trilha personalizada de conhecimento teórico e empírico. Acreditamos que, dessa forma, eles estarão preparados para os desafios de um futuro mais conectado, rápido e flexível, que exige habilidades socioemocionais tanto – ou mais – que conteúdo.

Entretanto, um estudo recente do Instituto McKinsey (baixe a pesquisa na íntegra aqui) nos mostra que, ao menos por enquanto, não é bem assim. Em um extenso relatório sobre os fatores que mais influenciam o sucesso escolar na América Latina, um dos destaques é que alunos tendem a performar melhor quando participam de uma mescla entre instrução orientada pelo professor e investigação por conta própria. “Se a educação de todos os alunos tivesse essa combinação de tipos de ensino, a nota média da América Latina no PISA subiria 19 pontos, equivalente ao aprendizado de mais de meio ano letivo”, constata o documento.

Parece contraintuitivo? À primeira vista, talvez, principalmente enquanto a aula tradicional professor-lousa-giz é tão veementemente criticada em eventos e reuniões no meio. Quer dizer que agora a gente para tudo e volta para o lugar de onde saímos? Não! Mas precisamos aprender a cumprir de forma mais eficiente o papel de educador no século XXI.

Você já aprendeu a aprender?

As metodologias ativas de aprendizagem não costumam ser eficazes porque pouco sabemos sobre elas – e frequentemente nos contentamos com essa visão superficial que pouco transforma a prática pedagógica. Pense em quantos artigos você leu sobre Aprendizagem Baseada em Projetos nos últimos cinco anos. Ou em quantas apresentações de PowerPoint você assistiu, sentado, sobre Aprendizagem Personalizada. Mas quantos cursos de formação de professores dos quais você participou nesse período realmente utilizaram essas abordagens?

É injusto exigir que nossa equipe docente tenha segurança e propriedade para virar sua sala de aula de cabeça para baixo se ela nunca teve a experiência real de quaisquer dessas estratégias. Se eu, como professora, me responsabilizo por cada aluno que passa por mim, como arriscar a aprendizagem deles sem nenhuma garantia? É urgente que os educadores sejam formados em metodologias ativas de aprendizagem através de metodologias ativas de aprendizagem (ou, como bem pontuou a pesquisa do McKinsey, com uma combinação de estratégias).

Aprender ativamente é uma mudança cultural

Como consultora pedagógica da Geekie, faço parte do time responsável por repensar nossas metodologias de formação de professores – a missão é muito mais do que somente provocar o uso de tecnologia educacional, mas de criar para cada escola uma experiência de aprendizagem significativa, estimulante e que combine recursos com intencionalidade pedagógica.

E, é claro, nada disso é feito em um único encontro.

Quando visitamos um colégio pela primeira vez, é imprescindível alinhar as expectativas de cada agente escolar. Isso porque a primeira tentativa de uso de uma metodologia ativa pode não melhorar a performance de todos os estudantes. Nem a segunda. Aliás, são comuns os casos em que a mudança desestabiliza não apenas professores, mas os próprios alunos, cujo referencial de escola ainda é bastante tradicional.

Jovens têm mais domínio de tecnologia? Arriscamos dizer que sim. Mas esse domínio costuma ser ferramental; é necessário que sejam desenvolvidas habilidades que permitam o trabalho autônomo, colaborativo ou investigativo.

Esse é outro ponto que, segundo o McKinsey, justificaria os baixos resultados de metodologias ativas na América Latina: é preciso que eles tenham uma base de conhecimentos e competências prévios para que sejam capazes de guiar a própria aprendizagem. Ouso dizer que fomentar essa cultura na sala de aula é o maior desafio do educador no século XXI. A partir daí, a combinação entre aulas expositivas e ativas passa a fazer sentido.

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Marcela Lorenzoni é especialista em Gestão da Educação no Novo Milênio pelo Instituto Singularidades e bacharel em Comunicação Social pela PUC-PR. Antes de entrar no universo de startups de tecnologia educacional, foi professora de inglês em escolas de idiomas, escolas particulares e no exterior. Hoje, é Consultora Pedagógica da Geekie. É apaixonada por protagonismo estudantil, tema que discutiu no ECOSOC Youth Forum, na sede da ONU em Nova York.

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