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Vamos falar de letramento informacional?

Julci Rocha, consultora educacional, fala sobre a formação de crianças e jovens para lidar com o volume gigantesco de informações que existe atualmente. Leia o artigo!

Nunca, em toda a história da humanidade, produzimos tanta informação. A primeira revolução no conhecimento começa com a disseminação da tipografia, com Gutenberg (1455), permitindo a produção em massa de conteúdo impresso. Segundo Cortella e Dimenstein, no livro “Era da Curadoria: o importante é saber o que importa” (2015), até então eram necessários dois anos para que dez copistas pudessem reproduzir 20 exemplares de um livro. Apenas no primeiro ano, Gutenberg já tinha publicado mais de dois milhões de livros. Para termos ideia do quanto as coisas mudaram com a invenção da internet, segundo o ex-CEO da Google, Eric Schmidt, “a cada dois dias geramos a mesma quantidade de informação que foi criada desde o início da civilização até o ano de 2003”. Da mesma forma, dobramos a produção científica mundial a cada dez anos (FADEL, BIALIK e TRILLING, Educação em quatro dimensões, 2015).

Diante desse cenário, não deveríamos dar mais atenção à formação das crianças e jovens para lidar com esse volume gigantesco de informações? Os professores constantemente se queixam da pouca qualidade das pesquisas dos estudantes, mas como podemos ensiná-los a avaliar e sintetizar de forma crítica as informações que encontram na internet?

O letramento informacional se ocupa dessa questão. Segundo Gasque (2010), o letramento constitui-se no processo de aprendizagem necessário ao desenvolvimento de competências e habilidades específicas para buscar e usar a informação. Ainda segundo a autora, “no contexto contemporâneo, o indivíduo precisa ser ‘informacionalmente’ letrado para atuar como cidadão crítico e reflexivo, dotado de autonomia e responsabilidade e, desse modo, colaborar na superação dos graves problemas de toda ordem que atingem hoje a humanidade”.

Essa também é a defesa de Charles Fadel e outros pesquisadores.  O tema foi incluído na proposta curricular do autor, hoje responsável pelo Center for Curriculum Redesign (CCR). Mesmo tratando do tema de forma sucinta, a publicação “Educação em quatro dimensões” (2015), apresenta uma estrutura contendo objetivos e mecanismos para o desenvolvimento do letramento informacional, que pode ser um excelente ponto de partida para os docentes que desejam desenvolver seus estudantes nesse tema. A estrutura foi desenvolvida pela instituição “The People´s Science” e se chama “Twenty-first Century Information Literacy Tools” (TILT), em português traduzida como “Ferramentas de letramento informacional do século XXI”.

Segundo a proposta dos pesquisadores, os objetivos de aprendizagem do letramento informacional são:

  • Manter uma disposição dinâmica, aceitando a natureza progressiva da informação e permanecendo aberto a novas evidências;
  • Considerar o papel das lentes socioculturais na interpretação da informação e a proliferação de novas ideias;
  • Cultivar o conforto com evidências concorrentes reconhecendo o debate informado como um estágio crítico e detalhado para chegar à replicação, ao refinamento e, finalmente, ao consenso;
  • Avaliar a credibilidade da fonte para encontrar pontos de acesso em comum no ciclo de disseminação da informação;
  • Desenvolver uma orientação informada para garantir a clareza sobre como uma evidência específica está situada no panorama mais amplo do conhecimento relevante.

(FADEL, BIALIK e TRILLING, Educação em quatro dimensões, 2015, p. 93).

letramento informacional

Ferramentas de Letramento Informacional – The People´s Science

Adaptado de: FADEL, BIALIK e TRILLING, Educação em quatro dimensões, 2015, p. 92

Na ferramenta, observamos que os objetivos são de três ordens: cultural, do indivíduo e da própria informação. Nesse sentido, não basta trabalharmos apenas a informação, que demanda certas habilidades, mas também a sensibilidade, que é da ordem da cultura e do indivíduo.

Importante destacar que o trabalho de letramento informacional não deve ser exclusivo da área das linguagens, mas de todas as áreas do conhecimento, segundo a proposta dos pesquisadores. Afinal, a pesquisa é um procedimento comum às diferentes áreas do conhecimento. Porém, considero que a área das linguagens, da qual faço parte, tem esse compromisso em seu próprio currículo. Portanto, trata-se de uma área de conhecimento privilegiada para tratar dessa questão de forma sistemática e exercitar esse processo constantemente, sem deixar de avaliar se os objetivos de aprendizagem estão sendo atingidos.

À medida que o conteúdo da informação vai se tornando mais complexo e os gêneros também, o processo exige mais esforço. Analisar um texto de blog e um artigo acadêmico demandam conhecimentos em profundidades diferentes. Do ponto de vista da credibilidade da fonte, por exemplo, talvez tenhamos mais segurança. No entanto, tais textos também apresentam qualidades distintas, que se evidenciam nas lacunas de lógica, em um enredo mais enviesado ou na ausência de contrapontos.

Estratégias relacionadas à leitura instrumental podem ajudar os docentes no desenvolvimento das sequências didáticas específicas para esse tema, em diferentes momentos da vida acadêmica dos estudantes.

Que tal experimentar colocar essa fantástica ferramenta em prática em 2018?

Referências

Leia mais:

* Julci Rocha Mestre em Educação: Currículo, especialista em gestão educacional, design educacional e educação inovadora. Licenciada em Letras pela USP. Pesquisadora da área de inovações em educação envolvendo tecnologias digitais, metodologias ativas e currículo. Mediadora de processos colaborativos, como o design thinking, tem experiência em elaboração, coordenação e desenvolvimento de programas inovadores em redes públicas e privadas, atuando na área há mais de 10 anos, com vivência em instituições importantes como o Instituto Paulo Freire, Fundação Lemann e Microsoft. Hoje é parceira educacional da Microsoft pela Redesenho e CoFundadora da Tríade Educacional. Contato: julci@triade.me