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Como inovar em sala me aproximou dos meus alunos

Por Leonardo Freitas*

Neste tempinho ausente da coluna, passei por uma série de experiências pessoais desgastantes, das quais não convém listar aqui (nenhuma em sala de aula, registre-se bem). Num dia de desabafo, com um grande amigo, ele me perguntou de forma direta: “Não sei como você ainda tem pique para dar tanta aula e inventar tanta coisa!”. Confesso que, na hora, fiquei meio sem jeito. Depois, fui pra casa pensando nisso e no que realmente me motivava a continuar assim. Se tem uma coisa que aprendi bem nesses anos é que um professor, seja ele do que for, tem de estar aberto à mudanças. O que hoje é padrão, amanhã é ultrapassado. Por isso, de maneira bem franca, resolvi tomar a pergunta do meu parceiro como fonte de inspiração.

Lembro como se fosse hoje do primeiro ano em que dei aula. Quando chegou junho de 1999, eu simplesmente estava esgotado. E, de lá pra cá, muita coisa mudou. Antes, eram aulas e aulas, duas provas no bimestre e uma reunião. Lá iam os alunos que ficariam para recuperação e outros, que seriam aprovados. Conselho de classe final e férias. Hoje, todos sabemos que a vida escolar não se resume mais a isso. Somos responsáveis por uma série infinita de outras coisas além da simples transmissão do conhecimento. Como o meio de ano está chegando e, consequentemente, o recesso, resolvi listar 5 pontos que considero ideais para um reinício glorioso, especialmente para aqueles com desejo de mudança. Vamos lá?

1 – Use novas metodologias!

Antes de me enveredar por aulas mais dinâmicas, vídeos, jogos, animações e tantas outras coisas que compõem o material que uso, relutei muito. Tinha receio de que não gostassem, de que não seria aprovado pela gestão e principalmente: vergonha! Morria de vergonha de expor meu trabalho mais íntimo (até hoje tenho um pouco disso), minhas ideias. Achava que tudo seria uma imensa bobagem e perda de tempo; que meus alunos achariam aquilo tudo infantil e ridículo. Como eu estava errado! Recentemente, passei a fazer minhas aulas de redação da seguinte maneira: todas as propostas que passo aos meus alunos, faço com eles em sala. Absolutamente igual! Qual foi minha surpresa quando ouvi pela primeira vez: “Olha! O professor sabe escrever!”. Nunca, em nenhuma hipótese, imaginei que os alunos iam reagir dessa forma. E eles estão adorando!

Não é preciso bolar coisas mirabolantes. Às vezes, soluções simples são as que mais causam impacto. Se for sua praia, busque por ferramentas tecnológicas que possam auxiliar no dia-a-dia. Por exemplo: o simples tradutor do Google, em sua versão sonora, me serviu como um excelente “ditador de ditados”. Como assim? Fácil! Selecionei palavras, criei um clima de silêncio mórbido e o tradutor do Google (e sua voz eletrônica) fez o serviço. Uma aula dinâmica, divertida e sem grandes esforços.

2 – Saia mais da sala de aula!

200 dias numa sala quadrada, monótona e quente são um verdadeiro castigo! Pensando nisso, resolvi propor aos meus pupilos que fizéssemos mais uma atividade diferente: espalhei envelopes com conceitos gramaticais pela escola, montei um grupo no Whatsapp pra cada turma e ia passando as dicas, de forma a explorarem o espaço e descobrir o que acontecia. Ao fim, havia uma caixinha de chocolates escondida embaixo do bebedouro, mas para isso, teriam de saber o tipo de formação da palavra “bebedouro”, dentre outros conceitos. Deu um pouquinho de trabalho planejar, pensar e executar essas coisas, mas a satisfação de ver seus alunos animados, realizando algo por gosto, não tem igual. Noutra vez, pedi que fotografassem placas com erros pela escola afora, ruas e comércios. E, claro, fui com eles! Depois, usamos isso em sala. Foi muito divertido. Pensar em algo assim é extrapolar os limites físicos de sua sala e os ideológicos de sua aula. Ouse! Uma aula feita assim e você vai querer muitas outras!

“Aproveitando o sucesso de “Capitão América 3″, propus uma redação sobre o filme. Além de extremamente empolgante, deu margem para um debate muito profundo sobre controle do estado, discriminação, liberdade e outras coisas”.

3 – Use e abuse dos filmes!

Quando eu fazia a finada oitava série, uma vez a professora de Literatura passou um “vídeo”: 9 semanas e ½ de amor. Pobre coitada… Aquilo custou seu emprego e quase todos os pais (inclusive o meu) taxaram a “aula com vídeo” como um fiasco, uma perda de tempo. Hoje, até por conta do You Tube, a coisa mudou muito de figura. Vagando por lá por 10 minutos, encontrei uma infinidade de vídeos sobre a Segunda Guerra (História); animações de cones, prismas e outros objetos (Geometria); um desenho animado do Pateta e a sequência de Fibonacci (Matemática); câmeras minúsculas viajando pelo corpo humano (Ciências); vídeos fantásticos do Street View, navegando pelas ruas de cidades do mundo todo (Geografia); reações em cadeia filmadas em super câmera lenta (Química), dentre várias outros vídeos fantásticos. Daria para viajar por esses vídeos por semanas. Ou seja: caso se queira ter um assunto/introdução diferente em toda aula, é totalmente possível, desde que bem planejado.

Aproveitando o sucesso de “Capitão América 3: Guerra Civil”, propus uma produção de texto dissertativo em que meus alunos tivessem de optar por um dos lados do conflito: time Capitão ou time Homem-de-Ferro. Não vou citar aqui o resultado (meu time foi vencido nos argumentos…), mas além de extremamente empolgante, deu margem para um debate muito profundo sobre controle do estado, discriminação, liberdade e outras coisas. Trouxemos bonequinhos pra representar a “plateia” e brindes. Alguns trouxeram camisetas, fizeram cartazes; enfim, foi contagiante. E isso tendo como base um filme de super-herói da Marvel.

Nem tudo que se passa em sala, se bem aproveitado, tem de ser necessariamente enfadonho ou restritamente “pedagógico”. Para que essas coisas funcionem, basta ter duas outras em mente: criatividade e vontade de fazer. De resto, tudo vai fluir bem. Confie!

Aproximar professor e alunos 2
Quando a turma começou a chamar um dos colegas de “viadinho”, o professor resolveu pautar sua próxima aula nesse conflito. Ele destaca como é importante estar próximo dos alunos, inclusive alterando o espaço físico da sala de aula.

4 – Seja criativo 24 horas por dia!

No ano de 2013, em uma aula no nono ano, houve um episódio muito grave de discriminação. Em resumo: João (nome fictício) foi taxado de “viadinho”. Tomadas as providências, na outra semana eu levei uma coisa um tanto quanto “inapropriada” para a sala: um jogo do bicho! Levei as regras, cartelas, como funcionava e simulamos algumas rodadas, valendo pirulitos. Mas, o que isso tem a ver com meu conteúdo? Nada! Pelo menos não a grosso modo. Como havia ocorrido o episódio do “viadinho”, levei o jogo para explicar as origens do termo (explicando, além disso, que o veado é animal nº 24 na tabela do jogo). Por incrível que pareça, os alunos mandaram um sonoro “dããããããããã”; ou seja: não viram relação na palavra com seu uso. Acharam “nada a ver”. Daí, aproveitamos para explorar o quão sem nexo é rotular alguém de uma coisa em que eles não viam nenhum sentido. Depois daquele sermão da montanha que eu dei, houve uns minutos de silêncio enquanto copiavam o conteúdo.

O fato é que João nunca mais voltou a ser citado, nem o “viadinho”. Nossa relação (professor X turma), que já era boa, melhorou bastante. Não sei que fim levou João, ou qual era sua opção sexual. Isso nunca me coube nem caberia pensar, tampouco julgar. Questões polêmicas e típicas da adolescência não precisam (nem devem) ser tratadas com ignorância ou indelicadeza. E o jogo do bicho mostrou-se bem apropriado para a sala de aula (já que ainda aproveitei para mostrar que ele é uma contravenção). Basta uma pitada de carinho e criatividade (sempre ela) para vencer qualquer questão que apareça numa sala de aula.

5 – Desça do tablado, fique próximo dos alunos!

Certa vez, dei aula durante 3 anos numa rede de escolas em que havia um imenso tablado. Uma espécie de palco em que subíamos, já que as turmas eram muito cheias, na média de 80 alunos. Aquilo me aterrorizava! Além de achar verdadeiramente muito alto (deveria ter uns 70cm), me causava estranheza, já que mantinha os alunos muito distantes. Inconformado com aquilo, passei a dar aula em círculo. Dava um trabalho gigante organizar todo mundo, mas, com o tempo e a rotina, tudo caminhou bem.

Embora muitos achem errado, a proximidade com seus alunos os torna mais íntimos. Isso facilita o aprendizado e a cobrança. Desde que estabelecidos no início, dificilmente um aluno irá transpor os limites do aceitável. Em minhas aulas, quando alguém extrapola, logo mando um: “Pô, cara! Logo você…” Aquilo dói neles! É uma espécie de chantagem emocional do bem, que funciona que é uma beleza! Não adianta pensar que a rispidez, a ignorância e o mau humor funcionam pra se educar. Por mais durões que pareçam ser, nossos alunos são apenas seres imersos numa fase angustiante e cheia de dúvidas, prontos e ávidos por atenção, controle e rumo.

“Por quantas vezes eu lia essas falas de outros professores e pensava: “Balela! Isso não é pra mim…”.  Hoje, apesar de todas as adversidades que aparecem, busco cada dia mais melhorar minhas aulas”. 

Eu teria muitos outros tópicos para abordar, mas acho que, com esses 5, qualquer um pode dar um pontapé inicial em sua própria reviravolta. Se serve de consolo, já fui um profissional cabisbaixo e triste com nossa realidade. Não adianta achar que vai mudar o mundo sem se transformar antes. Não veja as dificuldades de nossa profissão como barreiras. Elas existem, mas podem ser vencidas com um pouco de alegria. Inspire-se! Por quantas vezes eu lia essas coisas, essas falas de outros professores e pensava: “Balela! Isso não é pra mim…”. Pois eu afirmo com todas as letras que hoje, apesar de todas as adversidades que aparecem, busco cada dia mais melhorar minhas aulas, minha conduta e tudo o que represento para meus alunos, sua família e escolas.

Somos feitos de experiências, que dão certo ou não. E é isso que levaremos durante toda a vida. Resta a cada um escolher se quer levar as “cicatrizes” como traumas ou como consequências de batalhas vencidas. Eu, particularmente, prefiro a segunda opção. E olhe com carinho para seu maior objetivo: seu aluno! Um aluno cativado por você se torna verdadeiramente “seu” aluno. Melhor que ser temido, é ser admirado.

*Leonardo Freitas é graduado em Letras pela Universidade Católica, com especialização em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília. Leciona há exatos 16 anos, e desde pequeno queria ser professor. Já passou por todos os níveis, desde o fundamental I ao superior. Hoje, trabalha com seis turmas de 8º ano em uma escola particular de Brasília.

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