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A gestão gramatical na escola: aproximando a direção dos estudantes

É incoerente permitir haja erros gramaticais em comunicados externos da escola como anúncios, cartazes e avisos. Embora seja um erro não realizar revisões dos materiais, esse problema pode se tornar uma oportunidade para a direção se aproximar de educadores e estudantes. Este é o tema da coluna de estreia de Érick Nascimento, Gerente de Conteúdo do Geekie One.

Muitos diretores e diretoras estudam anos de Educação. Fazem graduações e cursos de especialização em licenciaturas e se envolvendo com as melhores empresas parceiras. Tudo para que sua escola possa ter os mais altos índices no que concerne ao processo de ensino e aprendizagem. Contudo, muitos acabam sendo vistos pela comunidade escolar como pessoas ligadas à administração, pouco intervindo na forma como estudantes aprendem.

Frustrante, não? Claramente, a Geekie aparece como parceira das escolas com diversos intuitos. Um deles é aproximar ainda mais a gestão ao dia a dia da sala de aula, especialmente oferecendo dados para tomada de decisões diárias. Dados que podem ser (e em geral são) assertivos e indispensáveis na hora da escolha da estratégia educacional. Porém, isso tem sido suficiente para que diretores e diretoras se envolvam na educação?

A presença da figura docente em sala de aula geralmente é vista como a principal responsável pela educação do grupo discente da escola. A coordenação, indiretamente, também auxilia nesse sentido, principalmente no que concerne ao acompanhamento do andamento das turmas e da execução do planejamento das aulas. Mas como a direção pode se envolver também diretamente com o grupo de estudantes no sentido de auxiliar a aprendizagem?

O exemplo deve vir de todos

Crianças e adolescentes estão aprendendo o tempo inteiro. Tudo o que faz parte da escola é alvo dos estudos, ainda que não estejam conscientes disso. Um dos elementos que fazem grande diferença é o correto uso da língua portuguesa em quaisquer textos escritos que estão na escola e/ou que saiam dela, como comunicados, avisos e quaisquer placas. O que surpreende é que nem todas as escolas estão conscientes disso. É muito fácil definir que, na aula de Língua Portuguesa, as turmas aprendam regras ortográficas e gramaticais, aplicadas aos mais diversos contextos sociais, mas nem sempre isso ocorre no restante do ambiente escolar.

Certa vez, numa escola em que lecionei, observei erros gramaticais em cartazes. Conversei com a coordenadora, que disse que iria tomar providências. As semanas passaram, e os erros permaneciam. Falei segunda, terceira e quarta vez e, por não ver mudança alguma, resolvi agir, e contei com minhas turmas de 2ª série do Ensino Médio para isso. O trabalho do segundo bimestre consistiu em tirar fotos dos erros gramaticais contidos nos cartazes da escola e explicar o motivo de estarem errados em um novo cartaz, que foi exposto nos corredores. A gestão viu e entendeu o recado. Passei a ser chamado uma manhã por semana para revisar todos os textos da escola.

O anúncio de um passeio para o zoológico que diz que estudantes devem “chegar na escola com uniforme”, em vez de dizer que devem “chegar à escola com uniforme”; o e-mail para o fornecedor que diz que “o carregamento de resmas de papel precisam ser entregues hoje”, em vez de dizer que “o carregamento de resmas precisa ser entregue hoje”; o recado no mural que diz que “o intervalo mudou para 15:30hrs”, em vez de dizer que “mudou para 15h30”.

Envolvimento e comprometimento na comunidade escolar

Parece sutil, não? Mas não é. Qualquer contato externo à escola precisa entender que todo o ambiente escolar está comprometido com a educação, e os textos que são apresentados para qualquer instância devem apresentar a correção gramatical que demonstra o engajamento da escola pelo respeito à língua portuguesa, mas também com indireta educação de quem está lendo.

Fazendo um paralelo com outras disciplinas, ninguém vai mandar um e-mail indicando o preço da mensalidade e do uniforme com um erro de Matemática; ninguém vai fazer o anúncio da localização geográfica da escola com um erro de endereço; ninguém vai recontar a história da escola errando a data de fundação. Se é assim, por que alguém deve escrever qualquer documento ou comunicação oficial da escola com erros gramaticais?

A responsabilidade direta do grupo gestor nesse processo é premente, inclusive no que concerne à cobrança e exigência de que qualquer colaborador da escola (neste momento vista também como uma empresa) em produzir textos com correção gramatical. O grupo docente de Língua Portuguesa pode e deve ser envolvido nesse desafio, especialmente se tiverem carga horária disponível para se dedicar à revisão dos textos. Mais uma vez, a responsabilidade da direção é exigida, afinal, talvez haja necessidade de um pequeno e pontual investimento financeiro aqui.

Muitos podem pensar que os colaboradores já possuem esse tipo de expertise, o que pode até ser verdade, mas vale o investimento em uma oficina de gramática para empresas ou de um(a) profissional para revisar os textos, especialmente quando se toma consciência ainda mais intensa de que se educa de diversas formas, incluindo indiretamente, ao se escrever corretamente.

Esta, de certo, não é a fórmula mágica para que a direção se envolva diretamente na educação do corpo de estudantes, mas sem dúvida fará diferença na forma como qualquer pessoa vê a escola e continuará a ensinar nossos alunos e alunas de forma indireta.

* Érick Nascimento é formado em Letras pela UFC e tem mestrado em Literatura Comparada pela mesma instituição. Após anos de experiência na sala de aula, na qual atuou desde o Ensino Infantil até o Ensino Superior, tornou-se coordenador pedagógico-editorial em um sistema de ensino. Atualmente, gerencia o time de conteúdo do Geekie One.

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