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Gestão democrática: por que é tão difícil tirar do papel?

A gestão democrática envolve comunicação, participação e trabalho em equipe. O discurso está aí; porém, é essa a realidade da sua escola? A Diretora de Projetos Educacionais da Elos Educacional Claudia Zuppini fala sobre os desafios de implementar uma gestão democrática:

Hoje, vou falar com os gestores escolares e interessados neste assunto sobre Gestão Democrática. Tenho conversado muito com meu público sobre o tema, e, às vezes, me indago sobre o por quê de o assunto ainda ser tão discutido.

Afinal, o que não nos falta é legislação para dizer a todos os diretores e secretários de educação que as escolas devem envolver a comunidade escolar, que deve ser gerida através de colegiados legitimados por essa mesma comunidade e que a educação pública de qualidade é um direito de todos. Sem contar com os discursos inflamados sobre esse tema tão apaixonante, que conquistam o coração da plateia de docentes!

O que me intriga é o porquê de não conseguirmos fazer isso acontecer de fato. Sinto que, quando faço esse discurso, estou sendo redundante e óbvia; porém, as pessoas continuam pedindo que eu o repita. O que acontece então? Não nos convencemos disso ou não sabemos ainda como fazê-lo virar realidade?

Leia mais: Qual o papel do gestor na escola do século 21?

Tendo a acreditar na segunda opção. Temos uma jovem democracia em que a participação dos cidadãos ainda é incipiente, muitas vezes manipulada por interesses escusos. Como diria uma sábia secretária de educação que conheci há poucos dias: “Participar significa se expor… Será que estamos preparados para isso? ”.

Participar significa dialogar, trocar, refletir, experimentar novas culturas, estar aberto para ouvir – e, quando digo ouvir, estou dizendo ouvir de verdade, uma escuta atenta, olhando nos olhos do outro, fazendo um exercício de empatia em busca de um bem comum.

A reflexão que deixo é: Estamos preparados para isso? Queremos isso?

Gestão democrática dá trabalho, sim

Fazer uma gestão democrática dá trabalho, é uma tarefa complexa e exigirá do gestor, além de competência técnica, a aquisição de valores que talvez não façam parte da sua formação pessoal e nem da sua formação profissional. Então, os responsáveis para que isso aconteça devem estar atentos. Um conselho que eu daria é: Seja o exemplo, pois valores não ensinamos com cartazes na parede e sim com atitudes.

Ser democrático, acreditar que sua escola deve ser gerida de forma participativa e, principalmente, entender que isso irá colaborar para a melhoria dos processos internos da escola é algo que precisa ser construído. Diria mais: é necessária a construção de uma cultura de participação, pois só é possível construir algo sólido e grandioso a muitas mãos. Essa mentalidade torna toda a equipe corresponsável pelos resultados; e é exatamente assim que se nutre uma cultura participativa.

Não se desespere se sua escola ou sua rede de ensino não possuem essa cultura – muitas outras são assim, também. O importante é reconhecer o ponto em que estamos e começar. Começar é um ato de coragem, pois é o momento de reconhecimento do meu status quo e do primeiro passo para a transformação.

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Então, como podemos começar uma gestão democrática?

Será que a gestão democrática é o desejo de todos na sua escola ou rede? Já pensou sobre isso? Nada melhor do que uma boa conversa sobre a necessidade dessa abertura para a participação.

Para começar, a mudança deve vir da postura deste gestor. Reflita sobre como é a sua postura. Você é autoritário? Ou não? Sabe descentralizar? Sabe distribuir tarefas e responsabilizar cada membro da sua equipe para realização delas? Você sabe tornar sua equipe corresponsável pelo sucesso do trabalho?

Então, primeiro passo é a própria atitude do gestor, que não deve achar que vai resolver todos os problemas sozinho; pelo contrário, ele precisa saber contar com uma equipe que poderá contribuir e se responsabilizar por parte dos processos. Mas atenção: não esqueça do acompanhamento da sua equipe; atribuir funções e responsabilidade não significa abandoná-los.

Envolva a comunidade escolar

Depois disso, pense em eventos em sua escola para os quais possa convidar a comunidade. Eles devem ir além das reuniões de pais! Faça com que se sintam importantes para a escola, isto é, pertencentes. Crie, por exemplo, um grupo de pais colaboradores, cursos aos finais de semana, grupos para discutir os problemas da escola e propor soluções, etc.

Não se esqueça de que todos os processos devem ter uma comunicação clara e transparente, isso é fundamental. Faça a sua mensagem chegar à comunidade, use e abuse das novas tecnologias, blogs, redes sociais, grupos de conversas, cartazes, reuniões gerais e muitos outros.

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Mostre para a comunidade que seu foco de ação é juntar todos os esforços possíveis para a melhoria da aprendizagem dos alunos. Não há comunidade escolar que não se sensibilize com essa causa; qual família não quer ver a escola dos seus filhos evoluir e proporcionar para eles o melhor? Comunique este desejo de forma clara e, com certeza, terá o apoio da maioria.

Meu maior desejo é que, daqui um tempo, não precisemos mais ter que convencer equipes gestoras da necessidade de se fazer uma gestão democrática de qualidade. Assim, poderemos avançar para outras discussões; mas, enquanto isso não acontece, o diálogo está aberto e que não nos falte coragem para começar.

No meu próximo post, irei falar um pouquinho mais sobre como o gestor pode acompanhar a aprendizagem dos alunos. Fiquem à vontade para conversar mais sobre o tema da gestão democrática na escola nos comentários!

Continue aprendendo: O que é gestão democrática?

* Claudia Zuppini é formada em Pedagogia com Especialização em Ensino Fundamental pela FEUSP/USP e em Gestão Escolar pela UFABC FEUSP/USP e Mestre em Educação pela PUC-SP, na linha de pesquisa sobre Formação de Professores. Claudia tem 26 anos de experiência em educação como professora de Educação Infantil, Ensino Fundamental e diretora de escola. Foi premiada em 2007 com o Prêmio Escola Nota 10, concedido pela Fundação Victor Civita da Revista Nova Escola, na sua primeira edição para gestores. Consultora educacional da Fundação Lemann no Programa de Técnicas Didáticas. É sócio-fundadora da Elos Educacional atuando em parceria com a Fundação Lemann na coordenação do Programa de Formação de Professores e Gestores em Técnicas Didáticas e na formação de equipes gestoras no Programa Gestão para a Aprendizagem.