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Minha experiência na formação de professores para o Ensino Híbrido

Nossa colunista Lilian Bacich conta como o projeto Ensino Híbrido, do Instituto Península e Fundação Lemann, formou professores de escolas públicas e privadas para essa abordagem inovadora.

A formação continuada ou formação em serviço dos professores é sempre um desafio nas instituições de ensino. Quando se acrescenta a essa formação uma expectativa de uso de tecnologias digitais em sala de aula, muito mais do que substituindo o quadro de giz ou a lousa, mas incorporando seu uso às reais necessidades dos estudantes, como proposto pelo Ensino Híbrido, a situação fica ainda mais complicada…

Mas, em primeiro lugar… O que é Ensino Híbrido?

O Ensino Híbrido é uma abordagem que promove uma integração entre o ensino presencial e propostas de ensino online, valorizando as melhores formas de promover diferentes experiências de aprendizagem aos estudantes. É possível considerar que o termo Ensino Híbrido está enraizado em uma ideia de que não existe uma forma única de aprender e que a aprendizagem é um processo contínuo e que deve valorizar a colaboração e o protagonismo do estudante. Assim, podemos considerar que os dois ambientes de aprendizagem, a sala de aula considerada “tradicional” e o ambiente virtual de aprendizagem estão tornando-se gradativamente complementares. Isso ocorre porque, além do uso de variadas tecnologias digitais, o indivíduo interage com o grupo, de forma presencial ou online, intensificando a troca de experiências. A relação professor-estudante torna-se ainda mais produtiva, quando o foco deixa de ser a mera transmissão unilateral de conhecimentos e passa a ser a orientação dos estudos, a tutoria, a mediação no sentido de facilitar que o estudante transforme as informações, que estão à disposição em diferentes meios, em conhecimentos.

Continue aprendendo: Ensino Híbrido: O que é e como colocá-lo em prática

No Ensino Híbrido, “personalização” é palavra de ordem

Vivenciei este dilema em 2014, quando, fazendo parte de um grupo de consultores do projeto Ensino Híbrido, parceria entre Instituto Península e Fundação Lemann, iniciamos a formação de um grupo de professores para utilização da proposta de Ensino Híbrido em sala de aula. Contávamos com um grupo de 16 professores, de escolas públicas e particulares de diferentes estados (SP, MG, RS, RJ). Diferentes realidades e uma proposta de formação que deveria envolver cada um desses educadores, de forma personalizada. Continuamente defendemos que a personalização é a palavra de ordem quando nos referimos ao Ensino Híbrido. Essa personalização também deve ser o foco quando estamos envolvidos na formação de professores: é preciso pensar em formações que contemplem as diferenças e que busquem aproximar cada professor daquilo que ele tem condições de fazer hoje, com ajuda, e que em breve conseguirá fazer sozinho. A definição de Vygotsky para a Zona de Desenvolvimento Proximal também vale para o processo de formação continuada de professores e isso nem sempre é lembrado…

O desafio que encontramos, hoje, de acordo com o que identificamos em algumas pesquisas nacionais e internacionais, é que, apesar das instituições de ensino implementarem as tecnologias digitais em sua rotina, adotando computadores, tablets e outros equipamentos, ainda têm dificuldade em modificar as formas de lidar com o planejamento das aulas. Acabam fazendo uma transposição das aulas “tradicionais” para o modelo online e valorizando a exposição do conteúdo “de um para muitos” ou utilizando as tecnologias digitais como recurso que fica apenas nas mãos do professor, enriquecendo as aulas, mas não modificando a cultura escolar. Uma excelente infraestrutura, portanto,  não é o suficiente: a mudança da cultura escolar não ocorre do dia para a noite e requer espaço de experimentação e de reflexão do grupo para que surta efeito.

Leia mais: O que faz a tecnologia valer a pena, segundo professores

Nesse sentido, o que propusemos ao nosso Grupo de Experimentações foi um processo de pesquisa ação, por meio de reflexões sobre a organização da sala de aula, o papel do professor, os papeis dos estudantes no processo, a elaboração de planos de aula que contemplem a oferta de diferentes experiências de aprendizagem, a gestão do tempo, o papel da avaliação e, principalmente, a utilização integrada das tecnologias digitais em sala de aula, possibilitando a personalização.

Nosso grupo era formado por professores de escolas públicas, que implementaram a proposta com uma quantidade reduzida de computadores e valendo-se de recursos off-line, enquanto outros professores do grupo lecionavam em instituição de ensino com mais recursos e utilizam tablets e computadores conectados a redes de alta velocidade. Das duas formas, a qualidade da ação estava apoiada no planejamento de experiências de aprendizagem que utilizaram as tecnologias digitais como aliadas e, portanto, a formação dos professores para a análise e a utilização dos recursos disponíveis fez toda a diferença.

O papel do professor no Ensino Híbrido

O papel do professor é essencial na organização e no direcionamento do processo. O objetivo é que, gradativamente, o professor planeje atividades que possam atender às necessidades da turma. É importante que o processo de ensino e aprendizagem ocorra de forma colaborativa, com foco no compartilhamento de experiências e na construção do conhecimento por meio das interações com o grupo. Sabemos que esses objetivos não são exclusivos do Ensino Híbrido, porém, o foco no planejamento de aulas que contemplem essas diferentes abordagens pode facilitar uma aproximação de todos os estudantes com experiências de ensino que o levem a aprender mais e melhor.

Mais do que formar o professor para o uso das tecnologias digitais, a ideia é levá-lo a refletir sobre como ele pode inserir as tecnologias digitais em seu planejamento, mesmo que fazendo isso, inicialmente, de forma sustentada ou incremental. Ou seja, aprimorando sua aula sem abandonar aquilo que ele julga positivo em sua forma de ensinar. Gradativamente, percebemos que as ações do professor com o uso das tecnologias digitais em sua aula tornam-se inovadoras. A intenção não é oferecer receitas prontas, mas, de certa forma, “empoderar” o professor para que ele, conhecendo diferentes formas de integração das tecnologias digitais ao dia a dia da sala de aula, selecione aquelas que mais atendam aos seus propósitos.

Continue conhecendo nossa experiência com Ensino Híbrido

No nosso livro: “Ensino híbrido: personalização e tecnologia na educação” (BACICH, Lilian; TANZI NETO, A. e TREVISANI, F. M. Porto Alegre: Penso, 2015), apresentamos as reflexões desse grupo de professores, que são, hoje, nossos educadores-referência. Além dos relatos dos professores, devidamente embasados pela literatura, há planos de aula comentados e uma seção de perguntas e respostas, possibilitando inspirar professores que tenham interesse no tema para que possam fazer escolhas que mais combinem com sua realidade. A partir dos textos do livro, organizamos o curso online, disponível em diferentes plataformas, como o Coursera, e o curso livre e gratuito no site www.ensinohibrido.org.br

Nas próximas colunas, em parceria com os nossos educadores-referência, trarei relatos deles sobre suas experiências com o Ensino Híbrido, as vantagens que identificaram em relação à sua atuação e ao desempenho dos estudantes e, principalmente, os desafios que tiveram que encarar nesse processo.

Lilian Bacich é Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (IP-USP) e Mestre em Educação pela PUC/SP. Atua como Consultora de Metodologias Ativas no Instituto Península onde, há mais de dois anos, participa na elaboração de proposta e acompanhamento dos professores no Grupo de Experimentações em Ensino Híbrido. Também é Professora do Curso de extensão “Metodologias ativas para uma educação inovadora”, no Instituto Singularidades, e Coordenadora do Curso online “Ensino Híbrido: personalização e tecnologia na educação”. Contato: bacichlilian@gmail.com

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1 Comment

  1. 14 de outubro de 2016 at 15:21 — Responder

    Esse curso foi muito útil na minha formação, pois ouve-se muito falar da importância novas tecnologias na educação, mas é necessário usá-las com embasamento teórico, transformando nossas aulas em um espaço de interações cheias de significados para nossos alunos, tornando as aulas mais atraentes.

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