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Conheça a escola Riverside, na Índia, e saiba como a filosofia do “feel, imagine, do, share” pode fazer toda a diferença na aprendizagem

Debora Garcia fala sobre a proposta pedagógica inovadora da escola Riverside, na Índia. Conheça e inspire-se nessa história!

A frase é bem conhecida: “seja a mudança que quer ver no mundo”. É atribuída à Mahatma Gandhi, um grande líder espiritual indiano que disseminou seus ideais transformadores e pacifistas ao redor do planeta. E também funciona como uma espécie de mantra para uma escola singular localizada na cidade de Ahmedabad, na Índia, que atende pelo nome de Riverside.

Quando tive contato com a escola há dois anos atrás, durante a pesquisa de conteúdo para uma série desenvolvida para o Canal Futura, de imediato fiquei impressionada com a organização do espaço físico da escola, com a articulação e paixão da diretora Kiran Sethi, com a determinação do discurso e das práticas de seus alunos, e também com o inusitado de suas propostas pedagógicas. Algumas delas, de tão diferentes das que estamos acostumados aqui no Brasil, provocam um certo desconforto, um estranhamento inicial, para depois compreendermos os fundamentos do processo pedagógico que estão em sua base.  

Para Kiran, uma escola deve ter atribuições muito claras: “a escola tem que ser transparente, interagir com a natureza, e tem que, sobretudo, permitir que a criança não saiba onde a aprendizagem começa ou acaba,  promovendo um moto contínuo e significativo de aprendizagem”. Essa afirmação da idealizadora da escola Riverside tem relação direta com a aposta da instituição indiana no empoderamento dos alunos, na crença de que é possível, dentro de um contexto de trocas de aprendizagem permanentes, que um estudante complete a história do outro, que possa vivenciar a dor do outro para, por meio dessa experiência, contribuir para possíveis soluções e caminhos.

No início, convencer pais e mães de que uma escola com uma proposta tão inovadora funcionaria não foi exatamente fácil. Mas, com o tempo, ao verem os resultados acadêmicos positivos dos alunos, a comunidade escolar foi se dando conta de que aquelas estratégias que estavam sendo implementadas na rotina de aprendizagem faziam sentido e produziam aprendizagem significativa. E funcionaram tão bem que já serviram de inspiração para outras escolas ao redor do mundo, criando um tipo de franchising desse modelo educativo. Na Riverside toda criança pode aprender, tem talentos e precisa de atenção especial e individual. Eles acreditam muito em educar crianças e jovens para que tenham um grande senso de auto crença, de autoconfiança. “Não é possível mudar nada se não acreditarmos de fato em nossa capacidade de realização e resolução de problemas”, afirma Kiran.

Com a mão na massa

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No próprio documentário produzido pelo Futura presenciamos uma experiência pedagógica que concretiza bem os métodos inovadores da Riverside. A situação é a seguinte: como proposta de aula-passeio, um grupo de alunos do ensino fundamental fará uma excursão de ônibus para algum lugar interessante da cidade. Eles estão absolutamente animados com oportunidade, já se encontram no ônibus, estão visivelmente excitados, falantes e sorridentes, aguardando a chegada de um professor que irá liderar a pequena viagem. A temperatura fora do ônibus é escaldante. Dentro do ônibus, também. Acontece que o ar condicionado não está funcionando e a professora conta isso para todos os alunos, acrescentando que a excursão não será mais possível porque o sistema de refrigeração está quebrado. Alguns alunos protestam, apesar de reclamarem do calor excessivo, e dizem que não é justo que não possam fazer o tão esperado passeio. A professora pondera que não seria bom para ninguém, muito menos para o motorista que teria que dirigir naquelas condições. Frustrados, os alunos voltam para a escola e a professora propõe que eles possam conjuntamente pensar sobre o problema da refrigeração do ônibus e propor alguma solução concreta para resolver ou encaminhar o problema.

Nesse momento, a pedagogia do “what if?” (em português, “E se?”) entra em ação. E se os alunos pensassem em algum dispositivo de refrigeração diferente? E se viajassem de janelas abertas? E se o passeio ficasse agendado para um dia menos quente, segundo a previsão meteorológica? E se… em um sucessivo levantamento de hipóteses e possíveis caminhos de soluções para o impasse, articulando diferentes conteúdos e diferentes competências dos alunos nesse processo. Esse tipo de situação-pedagógica é corriqueira na escola. Como metodologia de base, eles também se valem do chamado “hands on learning”, que pode ser traduzido como “aprendizagem com a mão na massa”. A partir de situações concretas e reais, os alunos buscam respostas, criam soluções, desbravam novas trilhas para dar conta de responder a uma realidade complexa e desafiadora que é aquela que o mundo fora da escola nos impõe.

Na Riverside, em meio a tantas inovações, a disciplina dos alunos não é negligenciada. Porém, é encorajada a vir de dentro, por meio da própria reflexão dos alunos sobre seu comportamento e de seus pares, em um movimento de percepção, de empatia e de autoconhecimento. “Não é algo imposto de forma hierárquica pelos adultos, porque isso não funcionaria, entraria por um ouvido e sairia pelo outro”, como afirma Kiran. E o papel dos educadores é fundamentalmente de mentoria e mediação, propondo conteúdos e metodologias de aprendizagem à medida que os alunos vão traçando caminhos de interesse.

A filosofia do “Design for Change” posta em prática

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São somente quatro verbos de ação: feel (sinta); imagine (imagine); do (faça); share (compartilhe). Simples assim. Mas com uma potência que se fosse aplicada na vida de todos nós, traria transformações incontestáveis em nossos lares, em nossas comunidades, cidades, corporações, países…  Imbuída desses propósitos, Kiran Sethi idealizou o projeto mundial “Design for Change”, onde os participantes fundamentalmente expressam suas ideias para que a mudança que almejam possa de fato acontecer. “Quando você sente, que seja com o coração. Ao imaginar, que seja fora da caixa. Fazendo, saiba que você pode. E ao compartilhar o que criou, faça com que muitas outras pessoas acreditem que conseguem fazer algo semelhante também”. A trilha para se identificar um problema em comum e o passo a passo para encontrar a solução são alcançados por esses quatro itens da filosofia “design for change” que pode ser aplicada no contexto escolar, mas que, de tão poderosa, pode extrapolar esses limites e ser utilizada também em nossas vidas. Já parou para pensar no que te incomoda e que precisaria ser mudado? Essa filosofia inspiradora ultrapassou as fronteiras indianas e já chegou a 250 mil estudantes em 35 países. Prova que a intenção aliada à empatia e significado da ação fazem todo o sentido.

A Riverside percebe que, em algum momento de nossas vidas, seja pela conformidade ao sistema, pela pressão dos pares, pela necessidade de não causar incômodo, simplesmente podemos deixar de criar. O pensamento criativo desaparece e dá lugar aos procedimentos obedientes, dentro da norma, onde fazemos tudo conforme instruções. Nesse contexto, a escolha, as opiniões e a própria inovação ficam de lado. E o perigo mora exatamente aí. Para reverter esse quadro, a instituição fomenta a estratégia de resolução de problemas, por meio da cultura maker que nos ajuda a pôr a mão na massa e a resolver questões com nossos próprios recursos, sem esperar que as soluções caiam magicamente do céu.

Por tudo isso, a Riverside é um exemplo de escola inovadora, com foco na aprendizagem significativa e na resolução de problemas. E totalmente alinhada com as habilidades e competências necessárias para transitar no mundo contemporâneo. Ficou inspirado por essa experiência? Então não perca o episódio da série Destino: Educação –  Escolas Inovadoras.

* Débora Garcia é Pedagoga, Mestre em Educação pela UFF, Fulbright Scholar pela Georgia State University, GA e Especialista em Gestão do Conhecimento pela Coppe-UFRJ. É gerente de Conteúdo do Canal Futura e uma das autoras do livro “Destino: Educação – Escolas Inovadoras”, publicado pela Fundação Santillana/Ed. Moderna. Em  2017, em conjunto com Daniela Kopsch e  Daniela Belmiro,  idealizou e criou o blog “3Devi”, um espaço para contos, ensaios e reflexões da mulher contemporânea.  Acesse o blog em https://medium.com/3devi e entre em contato: deborag@futura.org.br

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1 Comment

  1. 14 de novembro de 2017 at 22:58 — Responder

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