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Conheça a E3Civic High School – uma escola na Califórnia que conjuga o engajamento, a educação e o empoderamento de seus alunos de forma inovadora

Em mais um artigo sobre escolas que inovam a educação ao redor do mundo, Debora Garcia fala sobre os diferenciais da E3Civic High School. Confira!

Como preparar nossas crianças e jovens para um futuro que ainda não sabemos como será? O mundo contemporâneo parece mover-se numa velocidade tão acelerada, tão vertiginosa, colocando-nos diante de tantos e tão novos desafios que pode nos parecer uma tarefa impossível montar um projeto de escola que dê conta de tantas questões, tantos dilemas, sem perdermos de vista um modelo pedagógico estruturado e minimamente fundamentado.

Mas uma escola americana localizada em San Diego, Califórnia, parece estar sabendo navegar com alguma tranqüilidade nesse mar turbulento da contemporaneidade, preparando seus alunos para uma educação mais holística que passe fundamentalmente pelo engajamento, pela educação propriamente dita e pelo empoderamento. Três palavras que em Português e Inglês começam com a letra “E” (engage/engajar, educate/educar, empower/empoderar). E que também nomeiam a escola que vou apresentar para vocês nesse artigo, a E3Civic High School.

Na visão de seus fundadores, as três letrinhas “E’s” juntas têm o poder de ativar conhecimentos que sirvam de fato para a vida acadêmica, a vida profissional e a vida pessoal, combinadas. “O que os alunos aprendem aqui deve fazer sentido para todas as dimensões de suas vidas”, defende a diretora e criadora da escola Helen Grifith.

Aprendizagem para a vida toda

Helen Griffith - E3Civic High School

A E3Civic High School parte de alguns pressupostos para fazer funcionar uma escola – charter (viabilizada pela San Diego Public Learning Foundation, pela San Diego Unified School District e pela prefeitura local) que oferece turmas do 9º ao 12º ano,  atendendo a aproximadamente 400 alunos dos arredores, onde a maioria é de hispânicos, seguidos por afro-americanos, brancos e asiáticos. A diversidade étnica é parte da essência da escola, tem relação direta com sua estratégia de ensino multicultural e é considerada um ativo, um grande diferencial de sua atuação educacional.

O primeiro desses diferenciais é justamente acreditar que a aprendizagem de todos nós não pode mais restringir-se  à nossa vida escolar e acadêmica, mas precisa atravessar todas as nossas dimensões de nossas vidas.  Isso é justamente o que defende o conceito de “lifelong learning”, ou “aprendizagem para a vida toda”, adotado pela E3Civic com vigor.

Um outro pilar de atuação da escola é a formação de líderes cívicos, formando jovens empoderados, com visão crítica dos problemas enfrentados por suas comunidades, que conseguem mais do que somente elaborar teses sobre os problemas que os cercam: sentem-se capazes e motivados para propor soluções práticas e eficazes para esses desafios. Os alunos da escola são constantemente encorajados a aprender conteúdos significativos através de projetos, colocando literalmente a mão na massa, articulando-se com escolas da região, organizações não-governamentais e pequenas empresas, fazendo a roda das soluções girar e acontecer de fato. A percepção da eficácia da escola é verificada não só pelos alunos, mas pelos educadores, pelos pais, pela comunidade como um todo. Uma sensação de pertencimento e de conexão que faz toda a diferença na aprendizagem.

Uma escola dentro da biblioteca ou uma biblioteca que é uma escola?

E3Civic High School

Uma outra particularidade da E3Civic High School é funcionar dentro de uma grande biblioteca pública. Escola e biblioteca conjugadas não compartilham só o espaço físico, mas dividem também o mesmo objetivo: a tal aposta na aprendizagem para a vida e o compromisso com a alfabetização plena, com a ampliação de repertório que seja consistente e aprofundado por todos os alunos.

Os estudantes passam um longo tempo na escola, começando sua jornada pela manhã onde tem tutorias personalizadas para eventuais questões de aprendizagem, depois participam de aulas dinâmicas sobre diferentes assuntos que duram em torno de 87 minutos e ao final dia engajam-se em projetos mão na massa, aplicando os conteúdos curriculares aprendidos de forma dialógica na vida real.

Para fixarem o conceito de trigonometria, por exemplo, os alunos calculam e medem o entorno da escola. E o mais interessante é perceber que os caminhos dos alunos para chegarem às respostas corretas é bem variado. Cada um usa os pressupostos conceituais que foi capaz de construir, estabelecendo novas conexões e verificando as respostas com os tutores. Seno, cosseno e tangente podem ser usados para medir a altura de um prédio do bairro, numa pequena excursão num dia ensolarado de verão. Ou os alunos podem também aprender sobre diferentes tipos de “função matemática”, para aplicarem em seus planos de negócio pessoais, outra tática de aplicação de conhecimentos utilizada pela escola. O interessante desses projetos de campo é articular diferentes áreas do conhecimento, como matemática, humanidades e inglês – sempre levando em conta o impacto que essas ideias podem ter ao serem implementadas pelas comunidades do entorno, na vida fora da escola.  

Além de utilizarem a personalização do ensino como base da aprendizagem, a escola também busca aprofundar os conteúdos, colocá-los diante de um contexto social e político mais amplo, convidar os alunos a mostrar para todos aquilo que aprenderam e o quanto aprenderam, permitindo que todos assimilem conteúdos enquanto criam coisas novas, não só memorizando ou repetindo fórmulas desgastadas. Um jeito de fazer isso acontecer é utilizar projetos com base no “collaborative problem solving”. Ou seja, resolvendo problemas de forma colaborativa.

Avaliar, avaliar, avaliar!

A escola organiza anualmente uma grande avaliação dos processos pedagógicos que estão em curso. Mas o mais inspirador disso tudo é que fazem isso de maneira transversal, envolvendo toda a comunidade escolar. Uma espécie de avaliação 360º onde todos avaliam todos e todos são avaliados. Ousado? Sim. Mas certamente necessário para garantir que a instituição continue mantendo um projeto coeso e bem construído e seja considerada uma das escolas mais inovadoras do mundo.

Os tutores/educadores anualmente têm a chance de dizer se estão se sentindo envolvidos com as tomadas de decisão da instituição, se têm recursos suficientes para exercer seu ofício com qualidade, se entendem e conhecem os objetivos de seu trabalho pedagógico e se conseguem estabelecer um bom equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

Os pais podem dizer se consideram o campus seguro, se a escola promove de fato a equidade, se é justa na avaliação de alunos procedentes de diferentes origens sociais, se dá oportunidade de liderança cívica à todos, entre outros aspectos avaliativos.  

E os alunos podem dizer se os materiais pedagógicos são suficientes, se as lições de casa ajudam ou não a fixar os conteúdos aprendidos, se os assuntos tratados de fato contribuem para prepará-los para a vida cívica engajada, se eles entendem a razão e importância do que estudam, se a avaliação vai para além das notas dos testes, se os tutores estão incorporando projetos mão na massa para intensificar a aprendizagem de alguns dos tópicos estudados e se o que estudam por lá está preparando-os bem para a vida acadêmica e profissional.

Ufa. Haja disposição em abrir o coração e as mentes para explicitar o que vem dando certo e o que tem espaço para aprimoramento. Um projeto pedagógico bem estruturado deveria sempre levar em conta esses pontos avaliativos. Do contrário, não tem como avançar e ser aperfeiçoado de forma coletiva e significativa. Mais uma lição que podemos aprender com essa escola pra lá de inovadora de San Diego.

Deu vontade de saber mais a respeito? Então veja a série “Destino: Educação Escolas Inovadoras” do Canal Futura que dedicou um episódio inteiro à E3Civic High School. E inspire-se com essa experiência educativa provocadora e estimulante!

* Débora Garcia é pedagoga, mestre em Educação pela UFF, Fulbright Scholar pela Georgia State University, GA, e especialista em Gestão do Conhecimento pela Coppe-UFRJ. É gerente de conteúdo do Canal Futura e uma das autoras do livro “Destino: Educação – Escolas Inovadoras”, publicado pela Fundação Santillana/Ed. Moderna. Em  2017, em conjunto com Daniela Kopsch e  Daniela Belmiro, idealizou e criou o blog “3Devi”, um espaço para contos, ensaios e reflexões da mulher contemporânea.

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