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Do Brasil ao Japão: o que podemos aprender sobre educação com outros lugares do mundo

A Geekie conversou com dois diretores que foram até o Japão conhecer de perto as boas práticas do país em educação. Confira os principais aprendizados dessa experiência resumidos neste artigo ou assista ao bate-papo online na íntegra, clicando aqui.

O Programa de Escolas Associadas da Unesco (PEA) é uma rede que trabalha pela cultura da paz, troca informações e compartilha projetos e ideais. A Geekie é parceira desta comunidade, que conversa muito sobre práticas educacionais inovadoras. Em junho, a PEA organizou uma viagem ao Japão com diretores das escolas, objetivando conhecer de perto o país e suas boas práticas em relação à educação.

O país é referência na área educacional devido a alguns aspectos. Os casos de agressão e violência são raros, pois os estudantes são ensinados a respeitar os professores e a escola. Além disso, os alunos japoneses são responsáveis pela limpeza da sala e da escola, aprendendo a cuidar do que é público. E as crianças também servem a merenda na sala de aula para os colegas, o que ajuda a desenvolver a noção de comunidade.

Convidamos Paulo André, do Colégio Arbos, e Sergio Brandão, do colégio Ofélia Fonseca, participantes da viagem ao Japão e ambos referência em educação e inovação, para compartilhar os principais aprendizados dessa experiência. Confira alguns resultados desse encontro.

Além disso, conversamos também com Lucila Cafaro, coordenadora da Educação Infantil do Colégio Mater Dei, que compartilhou suas impressões sobre a viagem para o Japão.

Na opinião de vocês, quais são as principais diferenças culturais entre o Brasil e o Japão?

Esta foi uma das principais perguntas feitas pelo público do bate-papo online. Paulo e Sergio compartilharam algumas percepções que tiveram durante a viagem.

Quanto ao comportamento, um dos aspectos marcantes de diferença foi a dimsciplina. O destaque é a locomoção: “eles são muitos, quase a metade da população do Brasil, em um espaço 23 vezes menor. Mesmo assim, eles se deslocam de forma muito ordenada e organizada”.

Ainda nessa linha, Paulo percebeu algumas características marcantes dos japoneses: “são formais, mas também são muito generosos, confiáveis, simpáticos e atenciosos”. Outro aspecto de destaque é que há dificuldade na comunicação em inglês, uma vez que muitos japoneses não possuem conhecimento da língua. Lucila diz que, nas escolas públicas, o inglês não é uma prioridade, dificultando a comunicação com turistas. 

Pensando em impacto ambiental, a característica principal é a limpeza: não há lixeiras nas ruas, portanto, caso você compre algo, você deve guardar seu lixo. Isso não foi observado somente na capital do Japão, Tóquio, e sim no país inteiro. Sergio perguntou para um japonês por quê não existiam lixeiras na cidade e a resposta foi: “você produziu esse lixo, é o seu lixo, então você mesmo tem que se desfazer dele”. Como diz Lucila, “é a questão do respeito com absolutamente tudo. O respeito com a comida, com as pessoas e principalmente com o lixo.”

Como o professor japonês é visto pela sociedade?

Ao relacionar a sociedade japonesa com o que é observado nas escolas, Paulo trouxe  uma pergunta para reflexão:

“É a sociedade que interfere na escola ou é a escola que constrói sujeitos que interferem na sociedade?” Paulo, diretor do Colégio Arbos

Sergio menciona que o povo japonês dá bastante importância para a educação: “ainda mais à figura do professor. O mestre ali é o mestre. Isso irradia para as crianças e irradia para as famílias”. Lucila diz que “não existe nenhum outro cargo público no Japão que é melhor remunerado que o professor”.

Paulo e Sergio já visitaram escolas em diversos locais, como Portugal, Espanha, Finlândia e Japão, e eles mencionam que observaram o modelo de escola tradicional em todos esses países. É o sistema baseado em “salas de aulas, faixas etárias, currículos padronizados. É como acontece a educação no mundo”, destaca Paulo.

Por outro lado, a tecnologia está entrando na sala de aula para facilitar o processo. Sergio destaca que as soluções digitais “não irão substituir o professor, e sim facilitar e apoiar”.

Como é o comportamento das crianças e jovens japoneses?

Sergio e Paulo apontam que a característica marcante é a solidariedade entre crianças, que trabalham de forma coletiva. Elas são responsáveis por organizar a biblioteca e limpar a sala, e isso ocasiona um empoderamento no aluno e incentiva à autonomia.

Já os jovens caracterizam-se pelo desejo de serem diferentes: pintam o cabelo e vestem roupas incomuns. O objetivo é destacar-se da uniformidade existente entre os adultos. Tanto que, como destaca Lucila, “eles não são muito religiosos, mas a questão da religião é suprida pela questão da fantasia – eles pintam o cabelo, vestem-se como personagens de anime e mangá ou como lolitas” Além disso, são bem competitivos e estudam muito para conseguirem boas colocações nos vestibulares. 

Além disso, ao observar alguns trabalhos escolares, Sergio compartilhou que sua percepção inicial ao observar alguns trabalhos escolares é de que a educação é focada na reprodução, não na criação: “só há releituras”. Também não há computadores em sala de aula, enquanto no Brasil, mais especificamente em São Paulo, existe uma preocupação na informatização de tudo – tela, datashow, lousa eletrônica.

Qual o motivo de sucesso da educação pública japonesa?

89% da educação japonesa é pública, financiada pelo governo. Algumas escolas são amparadas pelo Estado e pela comunidade – é um exemplo de escola alternativa. Quais são os motivo de sucesso da educação pública?

O fator principal que contribui para isso, na opinião dos entrevistados, é a reavaliação obrigatória do professor. Entre 7 a 10 anos de atuação, os educadores precisam participar de um processo de formação.

Além disso, a valorização do professor e o respeito pelo seu papel na sociedade “seria o segredo do sucesso”, segundo Lucila.

Como é o ensino médio japonês comparado ao ensino médio brasileiro?

Paulo e Sergio visitaram uma highschool vinculada à universidade. Nela, alguns alunos de 14 a 15 anos apresentaram trabalhos de pesquisa impressionantes, pois os jovens têm aulas de Metodologia de Pesquisa.

Além disso, foi percebida uma forte ligação entre família e escola: “Lá no Japão, a família participa da educação dentro da escola. E se a família não participar do projeto da escola, você não consegue crescer. Tanto que, na apresentação que presenciamos na highschol, as mães estavam presentes”, destacou Sergio.

“O Japão tem políticas públicas para produzir conhecimento. A riqueza do Japão está nas empresas que desenvolvem royalties e inovações. Isso nos pareceu fazer parte do ambiente acadêmico e escolar da educação básica.” Paulo, diretor da Arbos

Quais foram as boas práticas que vocês trouxeram do Japão para o Brasil?

O destaque foi para a visão do “aluno ser proativo e protagonista, além de ajudar as escolas a crescerem, tendo disciplina e se sentindo comprometido com o processo”. A grande inovação do currículo da educação japonesa, baseado em competências e habilidades, é fazer o aluno pensar e não somente memorizar grandes quantidades de conteúdos.

Por isso, a partir das relações entre a educação no Brasil e no Japão, é possível refletir sobre o jeito que o ensino é feito nas escolas brasileiras. O modelo de feira de ciências está correto?  Paulo acredita que é necessário “revisitar este modelo. O projeto de pesquisa geralmente tem data para acabar, e não continua porque o aluno já fez a apresentação. Isso não está certo”. Como Lucila diz, “a palavra-chave é o research – incentivam isso desde os alunos pequenos aos mais velhos”.

Outra reflexão é: como ensinamos os alunos? Paulo menciona algumas perguntas para serem feitas a uma equipe de professores e gestores: “como construímos um aluno que pensa e que aprende por si próprio? Nós ensinamos o aluno a observar? Nós mostramos aos alunos como devem fazer comparações?”.

Lucila já começou a adotar algumas práticas japonesas em sua escola: o Mater Dei lançou o Projeto Praticando Respeito, em que os alunos do Ensino Infantil são ensinados a ter respeito pelo planeta, respeito pela natureza e respeito pela escola. Sobre o respeito pelo planeta, a instituição está evitando uso de copos plásticos descartáveis – por isso, está pedindo garrafa de água para todas as crianças. Já sobre o respeito pela natureza, as crianças estão sendo ensinadas a cuidar de uma plantinha, a suculenta, e outras classes estão fazendo minhocários. E, sobre o respeito pela escola, todas as crianças estão sendo incentivadas a fazer algumas funções na sala de aula: guardar brinquedos, organizar materiais, limpar a mesa, varrer a sala e cuidar do lixo.

O objetivo do Mater Dei é fazer este projeto “virar coisa maior não só com pequenos mas todos funcionários e alunos e também comunidade”, segundo Lucila.

Mais uma reflexão sobre o ensino pode surgir a partir de um conceito chamado aprendizagem significativa, que baseia-se na relação entre a vida do aluno e o ensino. No Japão, foi observado que os alunos utilizam esta abordagem e fazem pesquisas para resolver problemas locais – a própria escola conscientiza os alunos sobre os desafios de onde vivem.

“O legado mais responsável que um educador pode deixar é fazer o aluno entender que ele vai precisar estudar para o resto da vida, não só na Educação Básica. Se esse aluno não sai da escola com essa vontade de aprender, com esse preparo de ser protagonista de sua aprendizagem, o professor deixa de construir o que é mais importante: formar alunos para o projeto de vida deles.” Paulo, diretor do Arbos

O impacto de inovar na educação é grande e é possível transformar a educação brasileira a partir de muita reflexão por parte dos gestores e educadores, além de atualização em conceitos como metodologias ativas. “Um passo a favor da inovação é o fato do Programa de Escolas Associadas da Unesco serem parceiras da Geekie, uma empresa inovadora. Isso já mostra para onde o jogo está indo”, de acordo com Paulo.

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